18 setembro, 2011

VIVENCIA DE EDUCAÇÃO POPULAR EM SALA DE AULA

Dias destes fui substituir uma colega em uma aula. O objetivo era a construção de um projeto para enfrentamento de problemas ligado a hipertensão. As disciplinas envolvidas: Atenção Primária à Saúde e Processos Pedagógicos.
Iniciamos discutindo a intenção do projeto que teriam que construir. Era um projeto de promoção de saúde ou de prevenção de doenças?
De um modo geral as pessoas não conseguem perceber a diferença entre uma coisa e outra. Ainda pensam a promoção como sendo parte da prevenção, como descrito por Leavell & Clark, ou seja, como parte da prevenção. Neste sentido não vêm diferença entre prevenir uma doença ou promover saúde.
Para explicar, de forma rápida a diferença entre Promover saúde e prevenir doenças, pois este não era exatamente o foco da discussão,  contei uma vivência pessoal em atenção primária. Neste caso, acontecida em 2009 na cidade de Pedro Gomes, Mato Grosso do Sul.
Estava há pouco tempo na equipe. Uma Agente Comunitária de Saúde – ACS - disse que tinha um problema com um senhor em sua área. Era muito séria a questão, segundo ela. O senhor Edmundo[1] tinha uma ferida no pé esquerdo. Fazia muito tempo e não fechava. Segundo ela, porque ele não seguia as orientações da Enfermeira, do Médico e nem as dela.
O senhor Edmundo fumava e bebia e isso explicava porque a ferida não fechava, por mais que ela lhe vigiasse.
A ACS sentia-se responsável por fechar aquela ferida e por não conseguir modificar o comportamento do usuário culpava-se.
Um dia fomos visitar o Senhor Edmundo. Ele morava perto da unidade de saúde. Era magrinho, falante e hospitaleiro. Morava em uma casa de pouco mais de dois metros quadrados. Não havia forro, banheiro  ou cozinha. Era apenas um cômodo. Sem agua encanada. O único luxo eletricidade, que usada para acender uma lâmpada. As necessidades fisiológicas eram realizadas em um balde e depois jogadas no fundo do quintal, em uma fossa.
Seu Edmundo tinha 86 anos. Nenhum parente vivo no mundo. Sem profissão e sem aposentadoria. Vivia de assistência social e de juntar lavagem que entregava para criadores de porcos. Sua única estripulia, contou com vergonha, era fumar um cachimbo no fim do dia e tomar uma cachacinha nos fins de semana.
A ferida no pé nem era tão feia assim. Na verdade, naquele dia não passava de uma descamação superficial e húmida.
Fiquei ali um tempo conversando com Seu Edmundo e pensando em que poderia realmente ajudar aquela homem. Ainda não sabia o que fazer.  E o mais certo era que quase nada podia para realmente melhorar a qualidade de vida dele.
Antes de ir lhe perguntei: o posto está lhe ajudando em alguma coisa?
Ele respondeu que sim, que a ACS lhe visitava todo mês, que podia pegar curativos e as medicações de pressão e diabetes.
Ai disse: O que mais a gente pode fazer?
Ele disse: não sei não. Acho que tá bom.
Fomos embora e a ACS questionou o porquê não falei nada do cigarro e da bebida. No que respondi: será que proibir este homem de fumar e beber vai melhorar a vida dele?
Ela ficou pensando um tempo e depois disse: mas alguma coisa a gente tem que fazer.
Mas o que podemos fazer para ajudar de verdade? Ela não soube responder. Ai ficou em silencia boa parte do caminho até a unidade de saúde. Mas ainda incomodada disse que não podia ser assim, que não aceitava que nada poderíamos fazer. Então disse: concordo contigo. Só que ainda não sei o que podemos fazer. O que sei é que proibi-lo de fumar ou mesmo convencê-lo a parar por conta própria não vai melhorar em nada a vida dele. Acho até que pode piorar e “nem só de pão vive o homem.”
Ai ela disse que conhecia uma pessoa que talvez pudesse nos ajudar a ao menos construir um banheiro na casa de Seu Edmundo. E eu disse, então vamos procurar essa pessoa logo. Enquanto isso não deixe de visita-los, de conversar com ele pedir que lave os pés e venha no posto sempre que quiser. 
Acredito que essa história exemplifica um pouco essa diferença entre promover saúde e prevenir doenças. Não sei se ficou claro para os estudantes, mas já tentei explicar de outras formas também e tenho certeza que das outras foi mais confuso ainda. Promoção de saúde é um destes conceitos difíceis de ser entendido e, principalmente praticado.

O problema parece estar em traduzir em atividades e números um conceito basicamente qualitativo e subjetivo. Nesse sentido, é preciso desenvolver métodos que permitam avaliar qualitativamente as atividades desenvolvidas para a promoção da saúde, e que esta informação sirva para o planejamento do trabalho nos serviços.[2]

Entendido este ponto passamos para outro. Educação em saúde. A educação em saúde praticada em larga escala no cotidiano é uma educação que entende que as pessoas são quadros em branco prontos a ser preenchidos. A educação bancário, como fala Paulo Freire[3]. Nesse sentido, as práticas educativas ainda hoje são voltadas para a mudança de comportamento individual, reforçando o modelo biologicista². Nesta forma de entender e fazer educação para saúde há uma crença de que as informações veiculadas por cartilhas, folders e panfletos são suficientes para produzir comportamentos saudáveis[4].
Ao pensar as práticas educativas os estudantes estavam pensando desta forma. Quanto chamei atenção para esse fato disseram que já tinham discutido isto com a professora de Processos pedagógicos, mas que não sabiam fazer de outra forma ou o que fazer.
Para não dizer o que deveriam fazer, mas também não deixar um vácuo, contei-lhes outra vivencia. Desta vez com um grupo de pessoas portadoras de diabetes na cidade de Rio Negro.
Do grupo toda equpe participavam, com exceção da médica e da dentista, que apenas atendiam no consultório. Já havíamos discutido, comentado, falado refalado tudo que podíamos sobre o diabetes. No entanto o resultado, em termos de baixar o nível da glicemia, não era grande coisa. As pessoas continuavam indo aos encontros pelo vínculo que se criou. Elas expressavam todos os meses a satisfação de participar. Percebiam que aquele grupo era bom para elas. Sentiam-se acolhidas.
O fato da glicemia não baixar, para maioria delas, parecia não incomodar. A tarefa que nos impúnhamos era evitar que aquelas pessoas tivessem agravos ainda piores que o diabetes. Mas elas pareciam estar ali por outros motivos. Não exatamente os nossos.
Em um destes dias de reunião, no meio da programação, chamei a Nutricionista, a Técnica de Enfermagem, a Profissional de Educaão Física e alguns ACS e disse: pensei em não fazer nossa programação hoje. Queria tentar uma coisa diferente.
Eles concordaram, apesar de achar estranho, mas como a gente vivia fazendo coisas estranhar, coisas que não se aprendia nos cursos de educação continuada do estado, aceitaram sem conflito.
Naquele dia dissemos para as pessoas nos contar o que mais lhes dificultava controlar a glicemia. Fizemos um acordo: nada falaríamos para criticar ou corrigi-los.
No inicio ficaram desconfiados, sem acreditar que poderiam contar. Mas aos poucos foram contando. Uma situação mais profunda que a outra. Um deles disse que o problema era que adorava pé de moleque. E quando pensava que não poderia mais comer esse doce mais comia. Chegava a comer um pacote por semana. Outra disse que adorava carne gorda e não conseguir evitar.
Todos sem exceção contaram alguma coisa. Nada dissemos sobre os “segredos íntimos” que revelaram.
No mês seguinte voltamos. Antes da reunião mediamos a glicemia de todos. E, naquele dia, muitas pessoas que tinham a glicose alta apresentavam melhora. Começamos a reunião como sempre fazíamos. Perguntando como havia sido o mês delas. O senhor que falou da dificuldade de parar de comer pé de moleque disse que durante o mês havia conseguido diminuir a quantidade de pé de moleque que comia. E que não chegou a comer mais de três doces em todo mês. A senhora que falou da carne gorda disse que só comeu carne gorda nos fins de semana.
Todas as pessoas presentes na reunião tiveram uma história de superação para contar. Nem todos apresentaram melhora na glicemia por causa disso, mas todas se sentiam melhores e em condições de enfrentar seu problema.
Sabe-se que a dificuldade de controlar a diabetes não se resume a questão alimentar. E que nem todos se beneficiam disto, mas a questão é que também não se vai conseguir essa transformação com prescrição de atitudes. Freire[5] diz que toda prescrição é a imposição de uma consciência sobre a outra. Por isso ela é alienadora.

Prescrição, mesmo que regada de um discurso libertário e popular, é muito semelhante às posições de um modelo hegemônico que os próprios educadores criticam. Esse modo de fazer e pensar é característico de profissionais que, apesar do discurso, desconhecem ou desconsideram que educar vai além da transmissão de informações ou do que se entende por conhecimento. Educar é construir um novo conhecimento a partir da troca de saberes e experiências².

Em outra aula, também de substituição, mas sobre visita domiciliar, uma estudante perguntou o que fazer quando entrar em uma casa com condições de higiene precária. Respondi que ela teria que decidir quando isso acontece, mas que, em minha opinião, o melhor seria tentar entender o porquê das condições. E aprender com isso.
A aluna não ficou satisfeita. Na verdade ficou revoltada. Como, disse ela, vou entrar em uma casa, ver falta de higiene e não falar nada. Afinal de contas a gente tá estudando, a gente sabe o que é certo e errado. Se não posso falar então para que estudar?
Vamos pensar, disse: Já conhece a história desta família, sabe por que da falta de higiene, sabe se tem agua encanada? Se podem pagar por isso? Se estão empregados? Se teve acesso a escola? Se o bairro tem coleta de lixo?
Não sei, respondeu a estudante. Vai ser a primeira visita.
Então vamos refletir: se um estranho entrar em sua casa e lhe dizer o que fazer. Vai gostar? Talvez, antes de falar qualquer coisa, seja melhor ouvir. Aprender. Criar vínculo com as pessoas. Daí vai saber se a falta de higiene é realmente o maior problema ou o primeiro e único que pode enfrentar.
Tanto os profissionais, como no caso da ACS, quantos os estudantes ainda estão pensando que um diploma vai lhes dar um saber absoluto e que por isso têm licença para entrar na vida das pessoas e ditar regras de comportamento. Esse pensamento é o que baliza o pensar e o fazer em Educação em saúde. Temos que aceitar que a maior parte das vezes  não temos as respostas. E que na maior parte das vezes o melhor é não ter mesmo. Que as minhas respostas não são adequadas e que talvez, como no caso da reunião do grupo de diabetes, as pessoas já as têm. Só precisamos lhe ajudar a perceber. Isso parece fazer toda a diferença, pois a forma clássica, ou seja, impor regras, nunca deu certo e que não vai dar.

REFERENCIAS


[1] Nome fictício, mas situação real.

[2] Prado EVd, Falleiro LdM, Mano MA. Cuidado, promoção de saúde e educação popular – porque um não pode viver sem os outros. Rev APS. No prelo 2011.

[3] Freire P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra; 1996.

[4] Morosini MVGC, Fonseca AF, Pereira IB. Educação e Saúde na Prática Educação do Agente Comunitário. In: Martins CM, Stauffer AB(Org.) Educação e Saúde. Rio de Janeiro: EPSJV / Fiocruz; 2007.

[5] Freire P. Pedagogia do oprimido. 44 ed. São Paulo: Paz e Terra; 2006.

2 comentários:

Poliana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Poliana disse...

Concordo Professor, mas, não é tão fácil entender que não podemos tentar impor regras com base em conhecimentos específicos com o objetivo de mudar e melhorar a realidade de muitos que necessitam de atenção e acolhimento, mesmo, muitas vezes, sendo com as melhores intenções. No entanto, temos que aprender que estamos para conscientizar e sensibilizar a população que, por assim dizer, já obtém o conhecimento.