22 fevereiro, 2010

PENSANDO SENTADO NA PEDRA VI

Este texto é parte das considerações realizadas a partir das discussões realizadas na primeira aula do semestre 2010-1 da disciplina Bases do cuidado e história da Enfermagem.

Freire (2006) diz que não existe saber maior ou mais importe que outros. No entanto, ao menos em Enfermagem, o valor social da profissão parece ser determinado menos por sua função social e mais pela imagem que se projeta dela.


Como visto no texto A CAPA DO SUPERMAN, em algumas situações não é o médico ou outros profissionais de saúde que anula ou tenta anular o saber da Enfermagem, mas a postura insegura do profissional frente aos colegas de trabalho de outras categorias. Ao mesmo tempo em que o Enfermeiro demonstra uma postura insegura, observa-se, como fala Vasconcelos (200) o médico, por mais que esteja inseguro intimamente, sente-se um super homem dentro de seu jaleco branco, o que equivale dizer: atrás da designação DOUTOR.


Ao que parece o Enfermeiro acredita na visão social que se tem da profissão e isso pode ser explicado pela imagem histórica que se criou do profissional. Geovanini (2002) diz que a Enfermagem moderna nasce ligada a reorganização hospitalar e que é o médico o principal responsável por essa reordenação. Ao longo do tempo, especialmente a partir da reorganização hospitalar do século 18 e 19, consolidou-se a profissão Enfermagem de forma complementar a medicina. Médicos estimularam o ensino da Enfermagem enfocando seu aspecto dócil e servil. A Enfermagem nesta época ocupava-se de todos os afazeres do hospital, desde alimentação, limpeza de paciente e ambiente, lavanderia, a execução das prescrições medicamentosas. Waldow (2008, p. 10) diz “todos os seres humanos possuem uma determinada visão de si mesmos, e esta particularidade não pode ser esquecida ao se analisa-lo” (...). Essa origem modesta parece ainda hoje intimidar a Enfermagem a ponto de, mais do que a imagem que a população tem dela, ela própria sentir-se inferior.


Embora na atualidade, em algumas faculdades, não haja diferença entre o que estudantes de medicina e Enfermagem precisam saber sobre fisiologia e bioquímica para executar seu trabalho, ainda imagina-se que o Enfermeiro não precisa saber tanto, pois sua função é apenas complementar e prática, e que o medico pensa e determina as ações do pessoal de Enfermagem.


E qual é realmente a função do Médico e da Enfermeira?


Waldow (2006, p. 10) diz que o trabalho da Enfermagem é cuidar, mas admite que outras corrente de pensamento dentro da Enfermagem podem pensar diferente, mas que todas concordam que o elemento cuidado faz parte de sua essência. (...)


a listagem que pode ser oferecida, em meu parecer, engloba o cuidado, desde administração medicamentos, instalar um cateter, assistir pessoas enfermas, promover a saúde, educar, gerenciar, realizar procedimentos, banhar, preparar para alta, fornecer informações, assim como ações, tais como: estar com, ajuda terapêutica, comunicação interpessoal, empatia, manutenção da integridade, entre uma infinidade de atos.


Waldow (2006) in Waldow (2008 p. 11) ainda acrescenta que “cuidar não é somente uma técnica, um procedimento, uma assertiva (...), na verdade, é uma arte que pressupõe uma técnica.


Pellegrino in Waldow (2008) diz que tanto Enfermagem quanto medicina cuida e curam, mas que o cuidado parecer ser mais evidente na Enfermagem enquanto a cura mais evidente na medicina.


A missão do médico é curar e da Enfermagem é cuidar, sendo que a finalidade social de curar é mais valorizada. Waldow chama atenção para o fato do cuidado ser o tipo de ação/atitude/postura que só se percebe quando é negligenciada.


Boff (1999) dizer que sem cuidado o homem não teria sobrevivo e desenvolvido enquanto espécie. Geovanini (2002) diz que a Enfermagem é tão antiga quanto à humanidade, porque é inerente a sobrevivência humana.


O ar que se respira, a água que se bebe, a comunicação, as funções escretoras do corpo e tantas outras coisas fundamentais para existência da vida só são percebidas quando por algum motivo faltam. Isso pode explicar porque a Enfermagem e sua ação passam despercebidas quando tudo sai conforme o esperado. Explica também porque é mais fácil lembrar atitudes de pouco cuidado nos serviços de saúde.


A analogia que se faz entre a Enfermagem e a música Carpinteiro do universo, de Raul Seixas e Marcelo Nova, é que parece ser o Enfermeiro e sua função essencial, ou seja, o cuidado, o carpinteiro que deseja consertar e cuidar de tudo. Pesquisas citadas por Waldow (2007) evidenciam que a imagem da Enfermagem está associada ao desejo de ajudar, fazer, prestar assistência ao outro. O mesmo sentimento expresso na música. Por isso pode-se dizer que a Enfermagem é o carpinteiro do universo.


Com uma função social que remonta o inicio da humanidade na face da terra, a missão de cuidar e conduzir a espécie por caminhos menos dolorosos, fica a questão, que parece irrelevante: Enfermagem é uma ciência? Ou melhor, precisa ser uma ciência para ter seu valor reconhecido?


Referências:

  • BOFF, Leonardo. Saber Cuidar, Ética do Humano - Compaixão Pela Terra. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1999.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo, Paz e Terra: 2006.
  • GEOVANINI, Telma. In: GEOVANINI, Telma; MOREIRA, Almerinda; SCHOELLER, Soraia Dornelles; MACHADO, Wiliam C. A. História da Enfermagem – versões e interpretações. Rio de Janeiro: Revinter, 2002.
  • OGUISSO, Taka. (Org) Trajetória histórica e legal da Enfermagem. 2. Ed. Barueri: Manole, 2007.
  • SEIXAS, Raul; NOVA, Marcelo. Carpinteiro do universo. Interprete: Raul Seixas e Marcelo Nova. In: A panela do diabo. Rio de Janeiro: WEA, 1989. 1 CD. Faixa 03.
  • WALDOW, Vera Regina. Bases e princípios do conhecimento e da arte da Enfermagem. Petrópolis: Vozes, 2007.
  • WALDOW, Vera Regina. Cuidar – expressão humanizadora da enfermagem. 2. Ed. Petrópolis: Vozes, 2007

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