12 agosto, 2009

ATENDIMENTO DE ENFERMAGEM E EDUCAÇÃO POPULAR(1)

Todo mundo sabe como a população é atendida nos serviços de saúde.

De um modo geral os profissionais, todos, exceto as exceções, têm aquela postura do “eu sei e você não sabe”. Principalmente se esse profissional tiver cursado uma faculdade, mesmo que seja daquelas de “fundo de quintal”, embora esse padrão de ensino, fundo de quintal, esteja cada vez mais difundido até em instituições públicas.

Mesmo quando se tem na ponta da língua o discurso da Humanização do atendimento, do respeito ao usuário, da defesa do SUS, a postura não muda. O atendimento é sempre, mesmo que não se perceba, pois é tão natural, feito do “iluminado” para o “coitado”. E o coitado tudo mundo sabe quem é: é aquele que é pobre, que não estudou que não entende o que a gente fala, que depende dos SUS.

Saber disso é chocante, vivenciar, além de chocante, é revoltante, apavorante e chega a provocar náusea. E é pior ainda, de assistir, de ver, de cheirar, de sentir, quando esse comportamento, do profissional iluminado, ainda se travesti de caridoso, piedoso, bondoso e bonito.

Hoje tive que vivenciar esse comportamento. Uma colega foi demonstrar como ela faz um atendimento individual, a famosa consulta de Enfermagem. A postura era, além da já descrita em relação ao usuário, professoral, pois, na cabeça dela estava me ensinando a ser Enfermeiro. Era como se ela dissesse o tempo todo: “veja como se faz”. Não tenho certeza, mas acho que na cabeça dos profissionais só existe uma maneira certa de fazer as coisas, ou seja, a deles. Particularmente eu acho que só existe uma também, a minha. Nisto acho que sou igual a eles. Fora isso não vejo grandes semelhanças. E espero estar certo nisto, pois seria terrível descobrir que não é assim.

Mas como disse antes, não se trata de atender bem ou não. Acredito que a usuária não tenha percebido nada de errado no atendimento. Foi um atendimento padrão, como a usuária devia estar acostumada ou até melhor. Tecnicamente nem o protocolo mínimo do Ministério da Saúde foi respeitado, mas quem liga para protocolo? Nem eu mesmo ligo tanto assim ou ligo para discordar dele, na maior parte do tempo. Mas isso não vem ao caso.

Embora a postura fosse à da “iluminada”, aconteceu uma coisa mais estranha ainda. Era uma coisa do tipo: “eu sei que você não tem capacidade de aprender então não vou tentar lhe ensinar nada”.

No meu bolso sempre tem um leitor de pensamentos. Ele só funciona com a mentes de alguns profissionais de saúde e utilizei ele para produzir as observações a seguir:

O IBGE preconiza que se deve perguntar para pessoa qual sua cor, que não se deve presumir. “Mas para que perguntar quando eu estou vendo? Por que incomodar a pessoa com esse dilema: Qual sua cor? Deixa que eu respondo, pois estou vendo, enxergo bem e sei as definições do IBGE. Para que incomodar essa pobre coitada?”

O Ministério da Saúde diz que o exame de HIV precisa ser autorizado pela pessoa interessada. “Mas para que contar isso para ela? Se conto ela pode não querer fazer. E eu estou vendo que ele precisa. O Ministério da Saúde e esse povo dos direitos humanos fazem umas coisas tão sem sentido.”

Esses exemplos foram para ilustrar na prática o que eu vi, vivi calado, coisa que dificilmente consigo fazer.

Mas como nem tudo pode ser assim tão difícil, amargurado, sofrido. O que vivenciei foi bom também. Bom porque percebi mais claramente o que significa dizer que EDUCAÇÃO POPULAR é uma postura profissional e de vida, que em todo lugar e em toda situação, mesmo em atendimento individualizado, como diz Eymard Vasconcelos, pode e deve ser praticado educação em saúde, EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE. Serviu para ver que, apesar dos “tapas na cara”, como na música de Cazuza, não sou mesmo um “ENFERMEIRO PADRÃO”, como gostam de falar por aqui. E isso, no meu ponto de vista, ponto que nasce dentro, bem fundo, de algum lugar muito mais profundo do que eu gostaria que fosse, na maior parte do tempo, é bom e me deixa orgulhoso de ser o profissional que sou, o cidadão que sou, apesar, de novo, dos “TAPAS NA CARA”.

(1) Ernande Valentin do Prado é Enfermeiro (mas não Padrão)/Sanitarista e Professor de Enfermagem da Faculdade AGES. Texto escrito em 2008.

2 comentários:

Anônimo disse...

Como o comportamento dos profissionais são parecidos,tenho que conviver com estes profissinais no curso de especialização em saúde publica, tendo uma visão de assistencialismo, voltada para o individuo e não para o coletivo, mas creio eu que as faculadade são voltadas para o assistencialimo, para a doença.

junior cesar

Ernande Valentin do Prado disse...

É isso mesmo Junior, mas nós podemos e vamos mudar essa situação meu camarada.