05 outubro, 2008

ESPECIALIZÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA

Hoje viajo para mais uma semana de aula em Campo Grande. Para não passar o dia sem uma postagem e, principalmente para demonstrar a produção realizada nas aulas estou postando um trabalho realizado para disciplina Demografia.

CAMPO GRANDE 2008

Alunos:

ANA PAULA DE SOUZA ARAUJO
ERNANDE VALENTIN DO PRADO
LEANDRO PEREIRA DOS SANTOS


DEMOGRAFIA

Trabalho apresentado na disciplina de Funções Demografia. Curso de Especialização em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública.

Professora Angela Marques.

ABR. 2008

APRESENTAÇÃO

A analise que segue foi realizado em quatro tópicos: Apresentação de Ernane Galveas sobre o texto Ensaio sobre população, Ensaio sobre população de Thomas Malthus e Das causas às conseqüências econômicas da transição demográfica no Brasil e em seguida realizado as considerações finais.
Cada texto será visto de forma separada e logo em seguida realizado considerações finais.
Outros textos ainda serão utilizados para compor o trabalho final, buscando assim compor um painel da demografia e suas implicações na área de saúde.

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO
ENSAIO SOBRE A POPULAÇÃO
DAS CAUSAS AS CONSEQUENCIAS ECONOMICAS DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS



APRESENTAÇÃO[1]


Segundo Galveas (1996), Thomas Malthus nasceu na Inglaterra em 1766, era de família próspera e tornou-se pastor da igreja Anglicana. Ele era liberal e defendia esses princípios ao extremo, inclusive acreditando na superioridade do eu sobre o coletivo. Galveas (1996, p.15) cita uma frase onde Malthus chegou inclusive a dizer:

É a administração estabelecida da propriedade e aos princípios evidentemente estreito do egoísmo que devemos todas as mais nobres realizações do gênio humano, todas as mais finas e delicadas emoções da alma, e tudo, enfim que distingue o estado civilizado do selvagem...”


Galveas diz ainda em sua apresentação de princípios de economia política e Ensaio sobre a população, que Malthus escreveu vários livros, no entanto apenas estes citados obtiveram alguma notoriedade. Sua obra deixa ver todo seu posicionamento ideológico e religioso. Segundo ele a felicidade não se pode alcançar neste mundo.
Em ensaio sobre a população Malthos realizou diversas previsões, incluindo a fome generalizada por incapacidade da terra produzir alimentos para todos. Estas e outras previsões nunca se realizaram.

Por causa destes “erros”, muito de sua obra foi desacreditada. “Malthusianismo é tolice”( Puggina)[2].
No entanto o mundo ainda está cheio de Neo Malthusianos. Sobre Malthus Kloetzel (1985) disse: Malthus contou com talento suficiente para dar um verniz de ciência à demografia e transformá-la em artigo de consumo de intelectuais e intelectualóides.
Sobre as previsões de Malthus é preciso fazer duas considerações:
1. O momento em que o autor escreveu o ensaio sobre população e realizou suas previsões, a Inglaterra passava por um período conturbado. A revolução industrial impulsionava mudanças rápidas e constantes. As nascentes indústrias precisavam de mão de obras que só existia nos campos. Leis convenientes a industrialização foram aprovadas expulsando os camponeses de suas terras, estes iam para cidade engrossar o exercito de excluídos e explorados. As cidades por sua vez não estavam preparadas para absorver dignamente essas pessoas e elas acabavam “amontoadas” em cortiços pestilentos onde epidemias de cólera, peste, tuberculose, tifo e outras doenças faziam vítimas todos dos dias e no “atacado”. Neste ambiente insalubre a violência e a falta de regras sociais eram constante, o que aumentava o estigma sobre as camadas sociais desfavorecidas. Mulheres e crianças trabalham até 18 horas por dia, ganhavam pouco e muitas vezes só o suficiente para se alimentar e ainda conviviam com a ameaça permanente de violência física por parte do patrão, demissão sem aviso prévio e substituição de mão de obra humana por novas tecnologias. O setor agrícola inglês, até por conta das leis de desapropriação de terras produzia pouco e mostrava sinais de saturação.
2. Visão religiosa e ideologia de Malthus ditando, mais do que prevendo, como a história deveria evoluir para justificar suas crenças.

Galveas aponta em sua apresentação que Malthus ignorou diversas premissas para realizar essas previsões e incorreu em erros grosseiros, mas será que foram erros mesmo ou ele tinha intenção de manipular as conclusões segundo sua fé e ideologia¿
Um dos erros mais grosseiros foi misturar a taxa de crescimento dos Estados Unidos e a evolução da produção agrícola da Inglaterra e daí concluir que não haveria alimentos para todos em um futuro próximo.
Mas esta não foi a única manipulação de dados que Malthus realizou em sua obra. Galveas, no mesmo texto diz: ele deliberadamente desconsiderou os avanços científicos e técnicos na produção de alimentos, na melhoria da saúde e na anticoncepção, já disponíveis na época.
Porque a obra de Mathus obteve a repercussão que teve sendo que outros pensadores, hoje esquecidos, já apontavam outros caminhos¿ Não seria porque a ideologia liberal religiosa dele oferecia uma visão de sociedade que era conveniente à burguesia nascente¿
Essa visão servia a dois propósitos distintos: justificar a exploração do homem pelo homem e ainda “aconchegar” as consciências, pois, segundo a visão de Malthus, nada poderia ser feito em beneficio dos pobres uma vez que eles mesmos eram culpados pela sua miséria e ajudá-los só serviria para aumentar a desgraça inevitável.
Na visão Malthusiana o proprietário de terras, mas numa visão contemporânea pode se estender essa visão para todo proprietário de meios de produção, deveria crescer e prosperar e dar emprego a quem fosse capas de lhe trazer lucro e isso, segundo sua visão liberal, traria beneficio para todos. Aos empregados caberia trabalhar, mesmo que em troca da comida.
Malthus admitia apenas uma forma de colaborar com os pobres, mas pode se apreender que não era com a intenção de melhorar a situação deles, mas sim para diminuir o risco de insurreição e violência contra a classe proprietária. Esta colaboração, sugerida por ele era o “fundo de manutenção do trabalhador” que seria formado pelo que sobrasse depois que o proprietário tirasse sua parte. Pode se dizer que seria uma espécie de “fazer o bolo crescer para depois repartir”. Formula que o Ministro da Economia dos ditadores militares no Brasil dos anos 60 e 70 defendiam[3]. Como se sabe essa divisão nunca aconteceu e a divisão de renda em nosso País só vem piorando para os trabalhadores. “... mas repete o mesmo padrão de todo o crescimento da história brasileira. A produção cresce sem distribuir os resultados de seu crescimento”. (DOMINGUES)[4]
Galveas, no mesmo texto ainda destaca as seguintes observações do pensamento de Malthus:
1. Os pobres eram culpados por sua miséria e se procriasse poderia ser considerado inimigo dos menos pobres e dos ricos.
2. Caberia ao próprio miserável conseguir uma maneira de ser menos pobre e todas as leis de assistência social deveriam ser revogadas, pois isso só serviria para adiar o inevitável e sendo assim a ajuda aos pobres não beneficiava nem o estado nem o cidadão.
3. Havendo escassez de alimentos os pobres se controlariam e não haveria grande procriação, mas em se tendo alimentos em quantidade para todo a população voltaria a crescer, o que traria miséria novamente.
4. A classe pobre da Europa poderia ter no futuro mais dinheiro e lazer, embora isso fosse contra a natureza deles e não houvesse dinheiro para todos.
5. Sempre deveria haver proprietários e empregados e embora a miséria lhe fosse desagradável não acreditava que pudesse haver solução.
Malthus criticou inúmeros pensadores de sua época, alguns que advogavam outra visão da evolução econômica e social e até alguns pares. Entre os pensadores criticados estão:
Marie-Jean Nicholas Caritat[5];
Adam Smith[6];
Economistas franceses; e
William Godwin[7]
A grande controvérsia, no entanto, foi mesmo com Willian Godwin e, como não temos a pretensão de aprofundar considerações sobre essas questões, esse texto vai se limitar a citar Willian Godwin.
Malthus chega a dizer que escreveu Ensaio sobre a população para rebater as idéia deste escritor.
Godwin: “Escritor e filósofo inglês, considerado o percussor do pensamento anarquista moderno, nasceu em 3 de março de 1756 em Wisbeach de uma família de dissidentes calvinistas”.
Segundo Galveas, Godwin já falava que na Inglaterra havia muita terra para ser cultiva e melhoramentos a ser implantados nas lavouras e no cultivo. Ele dizia que a raiz de todos os males estava na propriedade privada. Segundo esse autor a sociedade poderia evoluir para uma forma mais organizada e harmônica de desenvolvimento e convívio, o que poderia melhorar as condições de vida de toda população. De início, Malthus considerou o livro de Godwin um “trabalho criativo e proveitoso”. Reconhecendo-lhe o “espírito e energia”, mas tratou logo de qualificá-lo como um trabalho sem rigor filosófico e disse: “ele não procedeu a preocupação que a Filosofia parece requerer”. “Suas conclusões não são, freqüentemente, garantidas pelas premissas. Ele falha algumas vezes em remover objeções com as quais ele mesmo traz mais adiante... E suas conjecturas certamente excedem, de longe, a modéstia da natureza.”


ENSAIO SOBRE A POPULAÇÃO[8]

O prefacio do livro Ensaio sobre a população, diz que se trata de uma discussão sobre o aperfeiçoamento futuro da sociedade.
Dois detalhes chamam atenção neste prefacio, além de não ser assinado, ao menos nesta versão da editora nova cultura de 1996:
1. Cita que se trata da opinião de Malthus sobre o aperfeiçoamento da humanidade;
2. Cita que outros compromissos impediram o autor de dar ao assunto uma completa atenção. Diz ainda que ele considera que, mesmo não tendo dado atenção necessária ao assunto, basta uma “simples visão superficial da sociedade” para chegar a mesma conclusão que ele.
Com se pode apreender já no prefacio, Malthus considerava suas opiniões tão fortes e irrefutáveis que chegou a chamar os pensadores que tinham outra posição de “incapazes de examinar os pontos de vista do esclarecido benfeitor da humanidade”. (MALTHUS. 1996, P. 244).
O autor parte de duas premissas simples:
1. O homem precisa de alimentos;
2. A paixão entre os sexos é necessária e permanente. Como paixão entre os sexos pode-se entender procriação, pois ele não concebia a união entre casais que não o de procriar.

Malthus (1996, p. 246) “afirma que o poder de crescimento da população é indefinidamente maior que o poder que a terra tem de produzir meios de subsistência para o homem.” Sem controle, segundo ele, a população cresceria em uma progressão geométrica e os meios de subsistência em progressão aritmética.
Pelas contas que fez ele chegou à conclusão que o reino animal e vegetal é pródigo em criar a vida, mas que o espaço para isso é insuficiente. As certezas de Malthus a respeito do que fala é tanta que nem se dá ao trabalho de apresentar argumentos sólidos ou admitir que existem outras possibilidades de evolução para raça humana. Anticoncepcionais, que ele chama de vícios, é inadmissível em sua visão, mesmo considerando, por suas contas, que uma família pobre não tem como sustentar os filhos e os terão que vender ou dar para outro sustentar.
Um dos erros mais grosseiros da matemática malthusiana foi calcular o crescimento da população dos Estados Unidos e comparar com a evolução da agricultura na Inglaterra. Parece não ter ocorrido a ele que nos Estados Unidos havia muita terra para plantar. Também parece não ter causado comoção em Malthus à possibilidade de comercio entre as nações.
Outro traço marcante nesta obra é a descrença total na possibilidade de uma evolução social menos individualista, onde a solidariedade pudesse ser uma marca do desenvolvimento. Uma nova forma de organização social e econômica não é nem mencionada pelo autor. Ele chega a falar que os “agricultores e os capitalistas se tornam mais ricos por causa do aviltamento real do trabalho.”(MALTHUS, 1996, p. 253) mas não cita a possibilidade de organização sindical ou outros movimentos operárias como alternativa de organização social menos injusta. Até porque ele acreditava que: “...uma parcela da sociedade necessariamente deve ter dificuldades para viver e essas dificuldades recairão naturalmente sobre os elementos menos afortunados.” (MALTHUS, 1996, p. 170)
Segundo o autor o aumento da renda do trabalhador só serviria para aumentar os preços dos produtos, pois não haveria produtos para todos e assim o melhor é o trabalhador continuar ganhando pouco e evitar a escassez de alimentos.
Malthus atacava com muita fé as leis que beneficiava os pobres. Segundo ele essas leis só serviam para aumentar o preço dos alimentos, diminuir o valor do trabalho e destruir o espírito de luta dos pobres, que estariam melhores se deixados abandonados a sua própria sorte.

DAS CAUSAS AS CONSEQUENCIAS ECONOMICAS DA TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA NO BRASIL[9]


O artigo de Paiva e Wajnman, trata da produção acadêmica no campo da demografia no Brasil. Oferece inúmeros dados sobre isso, as formas de analise, as preocupações mais constantes em determinadas épocas e o porque desta evolução. No entanto não vamos nos ater a esses aspecto e sim nos dados que nos importam no momento para produzir uma reflexão da evolução da demografia de Malthus aos dias de hoje.
De inicio vamos fazer um apanhado geral do pensamento demográfico do século passado, tal qual Paiva e Wajnman fez:
1. 1958 – Coole e Hoover diziam que uma família pequena consome menos e poupa, família grande consome mais e não poupa e isso levaria a estagnação da economia. Com base nisto vendeu-se a idéia do controle de natalidade para os pobres do terceiro mundo.
2. 1974 – Conferência de população de Budapeste – Duas correntes:
a. Defendia vincular ajuda econômica aos países pobres apenas se esses concordassem em realizar controle de natalidade.
b. Defendia que a melhor maneira de conter o avanço populacional era o desenvolvimento econômico.
3. 1981 – Boserup dizia que o crescimento da população levaria ao desenvolvimento de novas tecnologias que impulsionaria o crescimento econômico.
4. 1994 – Conferencia de população no Cairo – Consenso sobre a questão da liberdade de escolha de quantos e quando ter filhos por parte da mulher.
Amarthya Sem defendeu nesta conferencia que a participação da mulher no mercado de trabalho e o aumento da escolaridade e cultura seriam os motores da diminuição da prole, não havendo necessidade de controle de natalidade, mas sim de planejamento familiar compartilhado e nunca impositivo por parte do estado.
Mais de 150 anos separam o pensamento de Malthus do pensamento de Coole e Hoover. Mesmo com a evolução da demografia e o mundo não tendo chegado ao estágio em que ele previu ainda existem seguidores. Por que os pressupostos de Malthus ainda não foram completamente abandonados¿
Hoje as questões demográficas já não se preocupam tanto com o crescimento populacional ou com o controle de natalidade, embora uma rápida busca na internet revele texto tão equivocado quanto o de Malthus, embora neste caso não se possa argumentar que o contesto leve a essas conclusões, uma vez que está mais do que provado que a diminuição da pobreza se consegue com crescimento econômico e melhor distribuição de renda através de políticas públicas apropriadas e não o contrário, ou seja, maior distribuição da riqueza pela diminuição do número de filhos.
Hoje se sabe que a transição demográfica é um fato inquestionável e que mais cedo ou mais tarde todas as nações passarão por ela. A transição, resumidamente refere-se à queda da mortalidade infantil e a diminuição da natalidade. Paiva e Wajnman (2005, p. 311) identificam três fases da transição demográfica:


“Na primeira fase ocorre um aumento na proporção de jovens e, em conseqüência, aumento na taxa de dependência, em função da queda da mortalidade infantil. Depois, segue-se um período de redução da taxa de dependência, graças à redução da proporção de jovens, em decorrência da queda de fecundidade, e, mais tarde, a taxa de dependência volta a se elevar, porque aumenta a proporção da população idosa, enquanto as coortes menores chegam às idades produtivas. Essas mudanças na estrutura etária ocorrem ao longo de décadas e em cada fase pode-se pensar em diferentes impactos.”

Neste contesto os autores chamam atenção para o fato de estudos sobre mortes por causas externas e imigração internacional ganharem maior relevância no estudo da população. O estudo da população hoje se concentra, segundo os autores, em questões ligadas ao perfil demográfico e etário, podendo assim orientar política públicas que as demandas geradas pelo novo perfil, embora ressalte que os estudos demográficos fazem estimativas em longo prazo e que as políticas públicas são pensadas em curto prazo.
Nas questões ligadas a saúde os estudo demográficos estão focados na mudança epidemiológica demandada pelo envelhecimento da população. Um das conseqüências da mudança etária diz respeito às características do Brasil, que convive com os ganhos de longevidade e ainda sofre com doenças decorrentes do subdesenvolvimento econômico. Outra questão é: as mulheres, que sempre foram as “cuidadoras” da família agora estão no mercado de trabalho, sendo assim quem cuida dos idosos¿ Outro dado interessante no trabalho de Paiva e Wajnman é que a previdência social tem diminuído a pobreza dos aposentados e aumentado a renda das famílias que têm idosos e conclui dizendo que as políticas sociais no Brasil conseguiram diminuir a pobreza do idoso melhor do que das crianças e jovens.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo considerando que ao escrever Ensaio sobre a população, Malthus vivia em uma Inglaterra conturbada e em ebulições causadas pela revolução industrial, não dá para aceitar as inúmeras incongruências em seu trabalho. Essas incongruências vão desde o fato de misturar números e lugares geograficamente muito diferentes para provar suas teorias, como na conta onde cita o crescimento da população norte americana e a evolução agrícola da Inglaterra, até o fato de afirmar que a Inglaterra teria 120 milhões de Habitantes no fim do século XIX, mesmo considerando que apenas 35 milhões teriam o que comer. Nesta parte ele foi incoerente com seus próprios argumentos, uma vez que disse que a escassez de alimentos constituiria uma barreira positiva ao crescimento populacional.
O que parece o principal erro de Malthus foi acreditar que não existiam outras possibilidades de evolução social e econômica para os povos. Ele não concebia que um casal pudesse casar e não ter filhos, o que talvez fosse realmente uma realidade para sua época e local de origem, mas porque generalizar isso para todas as nações da terra¿ Ao que indica a leitura de Ensaio sobre a população, ele acreditava que qualquer um que não pensasse como ele tinha sérios problemas de visão e argumentação. Povos que não agiam segundo os padrões europeus eram descritos como bárbaros.
A grande questão que se coloca no caso dos escritos de Malthus é: porque com tantos erros e incongruências ele ainda desperta tantos seguidores¿
A leitura de Malthus hoje no máximo é motivada pela curiosidade histórica de conhecer como evoluíram os estudos demográficos no mundo, mas uma rápida busca na internet mostra que existem inúmeros sites dedicados a promover o pensamento malthusiano ainda hoje. Tudo indica que esses seguidores desconsideram completamente as descobertas mais recentes da demografia, como por exemplo, a transição demográfica.
Paiva e Wajnman (2005) dizem que todo país, mais cedo ou mais tarde, vai passar pela transição demográfica e que o temor “bomba demográfica” foi substituído pólo termo “bônus demográfico”.
Mesmo assim o imaginado de Malthus parece ter incrustado no imaginário de muita gente e muitos governos, pois a doutrina da esterilização em massa nos países pobre foi posta em prática em diversos períodos. Dois dos maiores motivadores desta doutrina de controle de natalidade foram Coole e Hoover, que em 1958, com seus escritos, motivaram a vinculação entre ajuda econômica as nações do terceiro mundo a adoção de controle de natalidade.
Mesmo no Brasil, aonde essas idéias nunca chegou a comover os governos, sobretudo os militares que viam na procriação as condições ideais de ocupar o território brasileiro, sobretudo o norte. O grande crescimento econômico do Brasil nos anos 70 fez com que a doutrina de controle de natalidade não encontrasse terreno para se implantar, porém com as crises econômicas dos anos 80 houve alguns ensaios importantes, sobretudo no nordeste e nas preferias paulistas e por influencia da área de saúde.
No texto de Paiva e Wajnman fica claro que a condição econômica de uma nação não diz respeito à alta ou baixa natalidade do País, mas sim como é realizada a distribuição da riqueza produzida pela maioria. Eles citam Birdssall e Lesteg (1998) para dizer que os efeitos positivos ou negativos da renda da população, sendo maior ou menor a natalidade, não tem efeito alguns sobre a riqueza da maioria.
Mas essa discussão não terminou.
Ainda encontra-se na página da agencia de noticias BBC Brasil a seguinte manchete de 2002: Controle de natalidade promove crescimento, diz ONU. Segundo esse texto os países que implantaram o controle de natalidade tiveram um melhor crescimento econômico. O mesmo texto traz nas ultimas linhas a seguinte frase:

Scott Weinberg, porta-voz do Instituto de Pesquisas de População, dos Estados Unidos, afirma que o relatório não passa de propaganda. Segundo Weinberg, o relatório diz, em resumo, que diminuir a taxa de natalidade em países em desenvolvimento diminui a pobreza. Mas, para Weinberg, não há base científica para essa conclusão[10].

Outro texto colhido na internet diz[11]:

Malthus tirou da cachola a idéia de que a população aumentaria em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética. E previu que a Inglaterra chegaria ao final do século XIX com 112 milhões de habitantes, dos quais apenas 35 milhões teriam suas necessidades atendidas. Passou mais de um século depois da catastrófica previsão, e a Inglaterra, com 60 milhões de habitantes, atende perfeitamente as necessidades calóricas de sua população. Malthusianismo é tolice. Os contingentes populacionais miseráveis de diversos países, neste estágio de desenvolvimento da civilização, constituem matéria de reflexão para economia e para a política, muito mais do que para os demógrafos.

Sendo tolice ou não o pensamento Malthusiano continua influenciando muita gente, muitos governos e até relatórios da ONU. A grande questão é o porquê isso acontece¿
Parece fundamental questionar neste ponto: a quem servia a visão de Malthus¿
Veja o que diz um interessante artigo do site mídia sem mascara sobre o controle de natalidade nos dias de hoje: “Sob o ponto de vista político, um Estado com o poder de intervir na intimidade familiar, criminalizar a procriação e esterilizar seres humanos como se fossem reses é um ente assustador.” Não seria o caso e pensar nesta perspectiva, evidentemente em outras bases, já na época de Malthus¿
Essa visão pessimista da evolução da humanidade: a culpabilização do miserável pela sua miséria; a falta de perspectivas de melhorias sociais; a impossibilidade de felicidade neste mundo; a descrença na solidariedade; a descrença na eficácia de políticas sociais compensatórias; o desestímulo de ajudas pessoais de abastados sob os pobres; a crença de que apenas os mais aptos deveriam ser auxiliados; de que o egoísmo era a chave das virtudes humanas; tudo isso servia a que e a quem¿
E essa mesma visão serve a quem hoje¿

NOTAS

[1] As reflexões deste capítulo têm como base o texto de Ernane Galveas, Apresentação ao livro de Thomas Malthus: Ensaio sobre a população e Princípios de economia política.

[2] Texto sem data especificada.

[3] Para saber mais sobre Delfin Neto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Delfim_Netto

[4] Para ler texto completo sobre um dos aspectos da divisão da renda no Brasil, acessar: http://www.midiavigiada.kit.net/tv/globorural.htm

[5] Para saber mais sobre Marie-Jean Nicholas Caritat, acessar: http://pt.wikipedia.org/wiki/Condorcet

[6] Para saber mais sobre Adm Smith Acessar: http://pt.wikipedia.org/wiki/Adam_Smith

[7] Para saber mais sobre Godwin acessar os seguintes enderços: http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Godwin http://www.dec.ufcg.edu.br/biografias/EcWiGodw.html http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pensadoresanarquistas.html#1

[8] As reflexões deste capítulo têm como base o texto de Thomas Malthus: Ensaio sobre a população.

[9] As reflexões deste capítulo têm como base o texto de Paulo de Tarso Almeida Paiva e Simone Wajnman: Das causas as conseqüências econômicas da transição demográfica no Brasil.

[10] Para ler o texto todo acessar: http://www.bbc.co.uk/portuguese/economia/021203_natalidadeep.shtml
[11] Para ler o texto na integra acessar: http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4590

REFERÊNCIAS

BBC Brasil. Controle de natalidade promove crescimento, diz ONU. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/economia/021203_natalidadeep.shtml Acessado em: 19 de março de 2007.
Domingue, S. Agronegócio é o contrário da Reforma Agrária. Disponível em: http://www.midiavigiada.kit.net/tv/globorural.htm Acessado em: 27 de abril de 2008.

Gaveas, E. Apresentação in: Princípios de economia política. Principio de economia política e Ensaio sobre a população. São Paulo: Nova Cultural, 1996. 384 p.

Kloetzel, K. Qualé a questão do controle da natalidade. São Paulo: Brasiliense, 1985. 120 p.

Puggina, P. Controle de natalidade? Acessado em: http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=4590 Acessado em: 21 de março de 2008.

Paiva, P.T.A. e Wajnman, S. Das causas às conseqüências econômicas da transição demográfica no Brasil. Revista brasileira de estatística e estudos da população. São Paulo, v. 22, n. 2, p. 303-322, jul./dez. 2005.

Malthus, T. R. Ensaio sobre a população. São Paulo: Nova Cultural, 1996. 384 p.

Rodrigues, E. Pensadores anarquistas e militantes libertários. Acessado em: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pensadoresanarquistas.html 19 de março de 2008.

Nenhum comentário: