15 junho, 2008

DEMOCRACIA, TRANSPARENCIA E CIDADANIA

Esta semana estive muito próximo dos professores da cidade por conta das atividades educativa do Projeto Viva Rio Negro. Na mesma semana nos reunimos com professores da escola Leontino do período da manhã e da tarde, com professores da escola São Francisco Pólo e professores da escola Otávio do período da tarde.


Em todas as escolas fomos muito bem recebidos e quase todos os professores se mostraram interessados. É verdade que alguns não conseguiram esconder o tédio e do desdém com mais uma demanda social a lhes exigir, mas a maioria recebeu a proposta muito bem.


Em uma cidade como Rio Negro, de menos de cinco mil habitantes, onde todo mundo se conhece de uma maneira ou de outra e se esbarram em diferentes atividades, seja no supermercado, seja na igreja. Aqui somos três enfermeiros e é muito fácil confundir os papeis que desempenhamos no dia-a-dia. Digo isso porque nem todo mundo tem o discernimento de separar os papeis ou as mascaras que trocamos no cotidiano para dar conta da complexidade da vida em sociedade.


Eu sou Enfermeiro, mas não deixo de ser pai de aluna, de gostar de música, de sentir falta de cinema, de andar de bicicleta e, principalmente, não deixo de ser cidadão. Esses papéis não devem ser confundidos. Digo isso e quero explicar melhor: o Enfermeiro Ernande e o Pai de Aluna das escolas são a mesma pessoa, no entrando desempenham papeis diferentes com responsabilidades diferentes ao longo do mesmo dia, semanas e meses.


Não cabe ao Enfermeiro enquanto profissional buscando desenvolver um trabalho intersetorial com as escolas criticá-las, intervir na gestão, questionar o processo pedagógico, a gestão, a qualidade da limpeza ou do desempenho dos professores. No entanto o Ernande, que não deixa de ser Enfermeiro, mas é também pai de aluna pode, tem o direito e o dever de criticar, questionar e cobrar explicações de tudo isso.


E por que esse assunto surgiu¿


Como em todos os anos o mês de junho marca o inicio das festas escolares, as chamadas festas juninas.


Entendo que festas organizadas pelas escolas deveriam ter um caráter pedagógico e cultural, porém em qualquer parte do Brasil essas festas são realizadas pensando em arrecadação financeira para suprir deficiências não cobertas pelo poder público, que é quem caberia prover as escolas em todas as suas necessidades materiais e financeiras. Mas não vamos entrar nesta discussão, pois é muito longa e foge do propósito momentâneo. Quero apenas frisar que em muitos lugares do Brasil as festas juninas nem mesmo tem comidas típicas ou músicas. Na região de onde eu vim, no Paraná, as festas juninas ficam o tempo todo tocando músicas sertanejas pop ou eletrônicas e tenho noticias de que no Rio de Janeiro eles tocam funk. Em Rio Negro as festas ainda guardam certo aspecto cultural intacto ou ao menos relevante e isso é mérito dos professores e da comunidade, mas também do isolamento geográfico que a cidade vive.


Entendo que a Educação, o que também vale para Saúde, tem a função primeira construir cidadania. A educação principalmente pela formação moral, ética, social e a saúde pela prestação de serviços que visem manter e ou recuperar a saúde e a dignidade da pessoa. Nesta linha de pensamento eu diria que a organização de uma festa poderia e deveria ser aproveitada de forma pedagógica pela escola. Poderia ser discutida com professores, gestão e demais profissionais porque realizar festas, para quem, com que propósito. Deve a escola fazer uma festa somente para arrecadar fundos¿


Digamos que essa discussão esteja vencida, que já se saiba tudo isso. Mesmo assim não deveria ser discutido com servidores, alunos e pais o que fazer, como fazer, onde aplicar os recursos arrecadados¿


Entendo que as tarefas dos professores são cada dia maiores e extrapolam a sala de aula, mas isso não pode ser evocado para falhar na comunicação e no papel primeiro que é motivar a cidadania nos alunos e na comunidade.


Se conseguem mobilizar para arrecadar, envolver os alunos na venda de bingos, rifas e outras formas de participação financeira, com facilidade poderiam demonstrar os resultados alcançados.


Quando digo demonstrar os resultados alcançados não estou querendo dizer que os professores estão ficando com o dinheiro da festa em tão pouco que não prestem conta das festas. Nem de longe suspeito disso. Antes de qualquer coisa confio na honestidade e nos princípios éticos dos professores, nos gestores e de todos os servidores das escolas de Rio Negro. Só estou questionado a forma como são as cosias são realizadas.


Não deveria haver reuniões entre pais e mestres regulares¿


Não deveriam perguntar aos pais qual forma de contribuição eles gostariam de dar¿ Particularmente é contra meus princípios comprar bingo, rifas e qualquer outra forma de jogo. Também não aprovo que meus filhos vendam e desconfio que existam leis que proíbam essa prática tão comum dentro das escolas. Eticamente é deseducativo constranger alunos para que aceitem desempenhar papel de vendedores.


Será que não existem alternativas a essa forma de fazer¿ Alguma vez perguntaram aos alunos se gostam ou querem fazer isso¿ Perguntaram se eles têm outra ideia para participar da arrecadação¿


Agora vamos supor que todas essas etapas foram vencidas. Que os servidores da educação se reuniram com pais e alunos eu decidiram que seria feito desta maneira. Mesmo assim, logo após a festa não deveria haver outra reunião para decidir como empregar esse dinheiro¿ O que construir, o que comprar, o que pagar¿


Prestar contas do quanto entrou e o quanto saiu é bom e mostra compromisso da escola com a honestidade e com a transparência, mas não passa disso e entendo que educadores deveriam ir além. Se não der para debater antes da festa com os pais e os alunos o que fazer com o dinheiro que será arrecadado, que seja feito depois, mas isso não pode deixar de acontecer, em por falta de tempo nem por qualquer outro motivo.


Com certeza os servidores e os pais de alunos têm visões diferentes das necessidades da escola. Sendo assim um debate franco e leal pode contribuir muito para cidadania de ambos, isso sem falar que pode aumentar a arrecadação da festa e aumentar o poder de decisão dos cidadãos rionegrenses.

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