22 junho, 2007

SAÚDE DO DETENTO - VIVÊNCIA DE UM ENFERMEIRO A BEIRA DO PANTANAL

Dizem que ninguém se importa com presidiário...que bandido bom é bandido morto. Dizem também que quando uma pessoa vai parar na cadeia, se for um bandido “pé rapado” sai de lá profissional do crime.
Rio Negro abriga o FORUM da região e por isso nossa delegacia vive cheia de presos. Aproximadamente 20 homens em duas celas, como em quase todo Brasil, com a capacidade ultrapassada. A maioria dos detidos são jovens residentes de outras cidades e esperando julgamento. Alguns sem família ou com dificuldade de receber visitas e fazer contato. A delegacia ainda não tem uma área para banho de sol, mas já está em construção.
Mas em Rio Negro, ao menos recebem uma certa atenção por parte da Secretaria Municipal de Saúde. Os programas do PSF da Equipe Urbana, que percorre vários bairros da cidade chegam também à delegacia.
São visitas mensais do Enfermeiro para verificação das condições gerais de Saúde.
Nas visitas são detectados problemas biológicos, mas principalmente de carência social. Para o detido, muitas vezes é difícil até entrar em contato com a família e a Equipe cumpre esse papel. Outras vezes basta lhes dar atenção, deixar que falem, que contem suas queixas.
Procuramos evitar questionar sobre os motivos da prisão, limitando aos casos que possam interferir nos cuidados, porém alguns querem contar e, principalmente, desculpar-se ou dizer-se inocentes.
Nos primeiros atendimentos eles vinham algemados e a tensão e o medo era visível em alguns membros da Equipe, e constrangedor atender uma pessoa com algemas. Hoje já é mais natural atendê-los e causam menor receios.
Alguns presos a gente percebe que fica aguardando o dia da visita, ou preferem não recorrer a ajuda.
Algumas vezes temos que mobilizar a comunidade para ajudar a conseguir roupas, produtos de higiene pessoal ou vender algum artesanato que produzem.
Além deste atendimento individualizado, que é também feito pela Médica e a Assistente Social, ainda fazemos bate-papos coletivos (eles do outro lado das grades, mas quem sabem ainda possamos eliminar isso...)
Das primeiras vezes foi detectado um grande número de pessoas com problemas dermatológicos, de simples resolução e também pressão alta. Que desconfiamos ser por causa da alimentação. Como os alimentos são preparados pelo único restaurante da cidade e a cozinheira freqüenta as reuniões do HiperDia não foi difícil modificar um pouco o tempero e hoje a pressão da maioria dos detidos melhorou.
Acredito que esse trabalho, voltado para o atendimento do detendo, lhe ajude a procurar a ressocialização, mostrando que nem todos lhe julgam ou lhe viram as costas. Serve também para Equipe despir-se de preconceitos e ver no outros um ser humano.

Nenhum comentário: