20 julho, 2013

DOIS CORPOS NÃO OCUPAM O MESMO ESPAÇO

(este texto foi originalmente publicado no Blog Rua Balsa das 10 - http://balsa10.blogspot.com.br/2013/07/dois-corpos-nao-ocupam-o-mesmo-espaco.html)
Ontem à noite estava de bobeira na porta do hotel Suez, em Dias D’ávila. Tinha uns caras conversando e fiquei ouvindo. Ai um sujeito disse:
- Tô louco para tomar uma, mas não vou tomar.
- Acho que não vai conseguir, disse o outro.
- Vou sim, eu estava me estragando muito. Pondo veneno no meu corpo.
- ...
- E eu conheci uma dona aí.
Aí, não sei por que, a conversa virou para construção. E, digamos que o nome dele era Luizão, começou a contar porque o hotel estava com goteiras e o que fazer para consertar. Mas isso não é tão interessante. Interessante ficou quando ele começou a contar porque as colunas de concreto racham. Segundo ele o ferro, se não for galvanizado, enferruja e, como o ferrugem é maior do que o ferro, acaba fazendo pressão de dentro para fora e racha o concreto. Isso porque dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço.
Mas para não acontecer isso, se o ferro não for galvanizado, basta pendurá-lo e mantê-lo longe da argila. Se não der para fazer isso, então dá para passar areia.
Depois ele explicou como umidade passa para a parede e o que fazer para evitar isso, os produtos e as formas de usar.
Luizão utilizou-se da química, da física e um pouco de filosofia para explicar tudo isso. Fiquei impressionado e perguntei-lhe se tinha noção de que estava lindando com todas essas coisas e ele disse que sim, que embora tenha sido expulso da escola, lia muito.
Para mim tudo faz muito sentido. O que não fazia nenhum sentido era Luizão ter saído da escola depois de reprovar três vezes a sexta série.
Luizão é de Salvador, nascido e criado de família completa. Ainda jovem, foi para o interior, trabalhou em circo de rodeio e depois virou agricultor por 20 anos.
Agora trabalha com construção civil e está construindo uma casa de três andares em Salvador, em uma parte do terreno da casa de sua mãe, que não estava sendo usada pelos irmãos.
Já era tarde e não pude conversar mais com Luizão. Apertei-lhe a mão grossa de trabalhador e fui embora.
Luizão não respeita nenhum pouco o que se imagina ser um pedreiro: pessoa sem “educação” e analfabeto, no imaginário, sobretudo de quem fez faculdade. Se a gente parasse mais para ouvir estranhos “tão próximos” descobriria mais razões para não nos matarmos.
Mas por que Luizão, com tão clara e evidente “esperteza” foi expulso da escola?
Quanto mais pessoas assim foram expulsas da escola por incapacidade de professores em conseguir compreender a forma como funciona o aprender/ensinar em particular?
Um professor mais atento, um sistema de ensino mais atento poderia ter feito de Luizão não um pedreiro, mas um filósofo. Não que ele não seja, não que filósofo seja melhor do que pedreiro, não que não se possa ser as duas coisas ao mesmo tempo. Mas, talvez neste mundo onde vale o diploma e o carro que se dirige, Luizão poderia ser engenheiro.
Descobri minha hiperatividade aos 36 anos. Nunca havia sido diagnosticado antes. E o “tratamento” com psiquiatras e psicólogos no Hospital de Clínicas de Curitiba, quase mudou quem eu sou, quem eu era. 
Sempre soube que minha cabeça não funcionava como “deveria”, como queriam que funcionasse. Nunca havia conseguido entender minha total incapacidade de deixar de falar demais, de fingir um pouco, de não explodir em horas impróprias, de não dominar a matemática e ser totalmente incapaz de seguir as regras ortográficas ou respeitar autoridades.
Perto desses “defeitos”, conseguir prestar atenção em mais de uma coisa ao mesmo tempo, ter sempre muitas ideias, ler cinco livros intercalados, não era nada. Sempre foi muito difícil minha vida na escola. Eram cadernos e cadernos de caligrafia, sempre de recuperação, dificuldades de relacionamento com professores, com a direção, de decorar conjugações verbais, tabuada. Sempre me senti um fracassado, até o segundo grau, quando as atividades extraclasse começaram a ser mais importantes para os professores.
Posso dizer que tive sorte, que não fui expulso da escola, mas, repito, quantos Luizões foram expulsos da escola, pela cegueira e incapacidade de perceber a individualidade do aprender?
É muito importante a gente não esquecer, que embora a escola tenha oferecido oportunidade de aprendizagem formal, sistemática para todos (ou quase todos), também passou a certificar quem é “inteligente, quem é burro”, como se só a escola tivesse a capacidade de ensinar, como se só quem faz escola tivesse saber.
Luizão e (meu avô, iletrado, mas que fazia cálculos “de cabeça” sem nunca errar) e milhares de pessoas provam que não é bem assim.

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