28 março, 2013

PAGAR POR PRIORIDADE



Ontem, enquanto fazia minha caminhada de uma hora por dia, refletia sobre a capacidade que muitos têm de roubar, de se dar bem acima de todos e tudo. E parece que quanto mais a população é carente, mais atrai aproveitadores, ladrões e espertalhões.
Quem nunca ouviu falar de prefeituras onde a população não tem quase nada, o povo passa fome, mas prefeitos, vereadores, secretários, servidores, juízes e até professores ajudam a desviar as recursos públicos. Em alguns lugares estão desviando até merenda escolar. Ela acaba virando propaganda eleitoral. Desviam o dinheiro de comprar a merenda e as crianças, sem tem o que comer (ainda mais com a recente seca) ficam sem nada até na escola.
Mas pode acontecer até pior. Recentemente fiquei sabendo que em uma cidade de Sergipe as merendeiras separam tudo que é bom da merenda escolar e divide com os funcionários e professores. E as crianças ficam com o que sobra, se sobrar. Ouvi dizer que há frízer cheio de polpa de fruta, mas suco só para professores. Os estudantes comem arroz sem tempero.  Como essa gente consegue dormir fazendo isso? Que justificativa arrumar para não se convencer de que são monstros?
E agora essa do Ginecologista que cobrava R$ 50,00 para priorizar o atendimento das gestantes. Absurdo. Ainda mais se a gente observar que gestantes já têm ou deveriam ter o privilégio de não precisar aguardar atendimento.
Fico pensando que tudo isso é uma conspiração. Há inúmeras normas, regras, protocolos estipulando como deve funcionar o atendimento as gestantes. Por que o serviço não é organizado de forma a atender como se deve?
Um serviço mal organizado propicia que esse tipo de coisa aconteça. Mas porque não se organiza o serviço? Um algumas teorias:
1.     Não há profissional que saiba organizar;
2.    Não há profissional que tenha interesse em organizar;
3.    A gestão não quer que organize, pois a desorganização dá lucro para alguns;
Não entendo como é que, mais de 20 anos depois da implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Estratégia Saúde da Família (ESF), ainda se faça pré-natal e hospital e ainda por cima com um Ginecologista. Por que isso, porque certas verdades não levam fé?
Não falando especificamente deste caso, pois a imprensa não explica nada, mas de um modo geral a mulher grávida ou melhor, o casal grávido, não precisa de um médico ginecologista para acompanhar seu pré-natal. Gestação não é doença, é um período de atenção e cuidado redobrado no intuito de evitar que doenças e/ou problemas apareçam. O Ministério da Saúde preconiza que o pré-natal de baixo risco, mais de 90% das mulheres, pode e deve ser feito na ESF pela Enfermeiro ou pelo Médico generalista, tanto faz um ou outro profissional.
Na ESF a mulher tem prioridade, não precisa enfrentar fila, ficar esperando. Ao menos se o serviço for organizado. E dá para organizar?
Claro que dá, basta um mínimo de bom senso e vontade política de profissionais e gestores. Não se trata exatamente de dinheiro, mas de vontade e capacidade.
Trabalhei em um município de cinco mil habitantes em que atendía-se gestante com hora marcada pelo SUS. Quem fazia o pré-natal era toda equipe. Eu, Enfermeiro coordenava todo processo, inclusive fazia os diagnósticos de gravidez, o primeiro atendimento e outros durante as semanas de gestação. A Médica participava, a nutricionista, o dentista, a assistente social, a Técnica de Enfermagem, ACS e todo o serviço. Todas a mulheres recebiam visita domiciliar de alguém da equipe na primeira semana de nascimento, se o caso exigisse, até uma visita por dia durante a semana toda.
Isso é possível em tudo lugar, basta organização e compromisso. Mas me pergunto: querem que o SUS funcione?
Se o SUS funcionar como vão vender planos particulares de saúde?
Isso é de pensar, não é mesmo?

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