15 fevereiro, 2012

PROCESSO SAÚDE/DOENÇA E A ENFERMAGEM


Ainda hoje a maioria dos profissionais de saúde, Enfermeiros, Nutricionistas, Psicólogo, Médicos, Terapeutas Ocupacionais, Fisioterapeutas, Odontólogos, Farmacêuticos, enfim, praticamente todos os profissionais da área de saúde, entendem saúde como sendo ausência de doença. Ou seja, que ter saúde é não estar doente, e doença significa ter uma dor, uma ferida localizada inequivocamente em uma parte do corpo.
Este entendimento, apesar de não ser orgânica da população, acaba assumida por parte dos usuários do serviço de saúde, não importa se público ou privado. Isso acontece de forma contraditória, pois a população associa a percepção biomédica dos profissionais com outras mais subjetivas[1]. 
Desta concepção biologicista é que deriva a falta de integralidades nos serviços de saúde, por consequência o não atendimento das demandas por cuidados que vá além dos aspectos meramente biológicos.
A concepção de saúde determina as práticas profissionais desenvolvidas no cotidiano dos serviços de atenção à saúde[2]. Esta é um reflexo da conjuntura social, econômica, política e cultural da época em que se vive e não é percebida da mesma forma por todos. Consideram-se ainda valores individuais, concepções científicas, religiosas, filosóficas[3].
Saúde/doença já foram pensadas como merecimento ou castigo divino. Nestas épocas os cuidados de enfermagem consistiam basicamente de fazer a vontade divina, contribuir para que os pecados fossem expiados para voltar a ter saúde ou realizar a passagem para o mundo sobrenatural. Nestas épocas

O conhecimento dos meios de cura conferia poder no seio dos grupamentos humanos, e o homem, aliando tal conhecimento ao misticismo, fortaleceu esse poder e apoderou-se dele, transformando-se muitas vezes em figura mística ou religiosa para aplacar a forças do mal[4]:7.

Centenas de anos se passaram desde estas épocas remotas da humanidade. Novas concepções foram sendo incorporadas, mas o entendimento mágico religioso ainda perdura em muitos lugares e em muitas culturas, seja urbana ou rural, apesar dos esforços racionalizantes dos defensores da ciência cartesiana.
Uma forma de entendimento de saúde/doença, que perdura apesar das evidencias demonstrarem estar ultrapassado, é diretamente responsabilidade dos profissionais de saúde. Esta concepção define saúde como não estar doente ou não ter uma dor. Este é o resultado lógico da concepção mecanicista da vida derivada da ciência cartesiana[5]. A consequência disto é o serviço, ou seja, o Sistema Único de Saúde - SUS, ser estruturado para retirar, arrancar, extirpar a dor, a ferida. Em alguns casos pensa-se em evitar a dor e a ferida. Ou seja, prevenção.  Mas ainda assim não perde de vista a questão da dor, da ferida, dos agravos, sobretudo biológicos. 

Os profissionais de saúde e também a população apreenderam durante anos uma prática em saúde que não buscava o olhar integral. Com a reforma, é necessário incorporar e construir uma nova concepção de saúde, capaz de compreender o indivíduo no contexto de uma coletividade e dos problemas que dela emana. Esse desafio remete à questão da formação profissional e de novas práticas sociais[6]:58.

Para quem acredita que essa discussão é muito abstrata e que na prática esta não é uma questão fundamental, ressalta-se o que diz Thomaz em texto de Minayo¹: “O problema das ideias que a gente tem, o problema das questões que a gente pensa é que aquilo que a gente pensa é real nas suas consequências.” Batistella² diz que

Os conceitos são a referência da prática. Traduzem-se nas opções de conhecimento necessário, no desenvolvimento de métodos, técnicas e instrumentos para a intervenção e, em última análise, na própria forma de a sociedade organizar-se para provê-la (a saúde) ou evita-la (a doença).

Portanto se gestores e profissionais acreditam que saúde é simplesmente o resultado de não estar doente, o serviço de saúde será organizado para evitar ou curar a doença e, as demais atividades serão desconsideradas. Nesta concepção cabe ao Enfermeiro apenas fazer o curativo, entregar a medicação, deixar o doente o mais confortável possível, enquanto o médico faz o trabalho principal, ou seja, tirar a dor e trazer a cura.
Cada sociedade organiza seu sistema de saúde conforme o entendimento que tem do conceito de saúde[7]. Esse entendimento, no Brasil, começou a mudar efetivamente a partir da reforma sanitária nos anos 70 e culminou com a criação do SUS na Constituição Federal de 1988. O SUS foi pensado para dar respostas às condições de vida da população e atender as necessidades integrais.  No entanto, as práticas nos serviços de saúde ainda ficam no básico, no que os profissionais sentem-se confortáveis em fazer, pois é o que efetivamente conhecem. Ou seja, ainda praticam saúde como sendo ausência de dor/doença/agravo. Isto acontece, entre outros motivos, porque a força de trabalho disponível para gerir o SUS é limitada qualitativamente[8]. Resultado direto do modo de ensino focado no modelo biomédico, que se estende a todas as profissões da área e não apenas aos estudantes de medicina, conforme ressalta Da Ross:

[...] a saúde é entendida assim: tem que ser resolvida aos pedaços, como se ensina na anatomia. Então, é necessário que existam muitas especialistas em pedaços. Também tem que ser um jeito de pensar em que só a biologia possa interessar, o que for social e psicológico não importa[9]:26.
 
A organização do serviço de saúde resultante desta concepção reducionista é esta que tem como finalidade primordial “arrancar a dor”. A maioria dos profissionais de saúde acreditam que a forma certa e objetiva de fazer isto é pedindo exames e prescrevendo medicações. E, de um modo geral, estas condutas são prerrogativas históricas do profissional médico. Então tudo acaba sendo estruturado em torno do saber e do fazer deste profissional[10]. Aos outros cabe ajudar a cumprir sua missão de extirpar a dor.
A visão mecânica do conceito de saúde ou da ciência que lhe embasa, ou seja, restrito a doença e as formas de terapêutica inerentes não deixa espaço de atuação para nenhum profissional e nem mesmo margem de auto governança para o doentes e/ou sujeitos. Nesta visão o médico prescreve e suas ordens são leis. Mas se o conceito muda, transforma-se, amplia-se,  modifica-se o significado do próprio saber e fazer em saúde.  “Tal processo, no entanto, dependerá da mudança conceitual no interior da sociedade como um todo, para o que profissões voltadas para um sentido de qualidade de vida, possam contribuir” [...][11]:13.
Trocando em miúdos, isto quer dizer que antes desta mudança fundamental no entendimento do conceito de saúde, que deixou de significar ausência de doenças biológica para incorporar valores como bem estar sócio-financeiro-cultural e espiritual, muda completamente o trabalho dos profissionais de saúde, sobretudo do Enfermeiro. Se antes os cuidados de Enfermagem eram apenas cuidar das feridas biológicas, agora incorporaram dimensões antes inimagináveis, pois precisa realmente ver o indivíduo como um todo e não como paciente.
A Enfermagem é uma profissão da área de saúde, ou seja, seu objeto de trabalho é a pessoa. Não necessariamente a pessoa doente, mas a pessoa que pode ou não estar e pode ou não ficar doente. Deve se buscar evitar que ela adoeça, se adoecer precisara de cuidar para que se reestabeleça o mais rápido possível, se a doença não tiver cura deve ser acompanha-la o mais de perto possível. Além disso, a pessoa para ter saúde de verdade, conforme a Constituição Federal de 1988 deve ter casa, transporte, alimentação, escola, acesso a bens e serviços de saúde de qualidade, emprego e renda suficiente para se manter com dignidade, etc.
Então cuidados de Enfermagem hoje seria contribuir para que todas estas condições sejam garantidas ao indivíduo, a família e a comunidade. Isso quer dizer que o trabalho verdadeiro e mais importante da Enfermagem é promover saúde. E promover saúde exige novos saberes e novos fazeres. Se antes era simples ser Enfermeiro, bastando fazer o curativo, hoje o que se precisa saber e fazer, mudou e complexificou. Muitas vezes anda-se no escuro sem saber exatamente o que fazer em cada uma das situações que se apresenta no dia-a-dia.
Bem vindo à era da incerteza. Com certeza agora ficou mais interessante ser enfermeiro, apesar de ser bem mais difícil.
 
REFERENCIAS

[1] Minayo MCdS. Saúde e doença como expressão cultural. In: Minayo MCdS, Amâncio Filho AM, editors. Saúde, Trabalho e Formação Profissional Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1997.

[2] Batistella C. Saúde, Doença e Cuidado: complexidade teórica e necessidade histórica. In: Fonseca AF, Corbo ADA. (org). O Território e o Processo Saúde-Doença. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz; 2007. p. 25-49.

[3] Scliar M. História do conceito de saúde. Physis: Revista de Saúde Coletiva. 2007;17:29-41.

[4] Oguisso T. As origens da prática de cuidar. In: Oguisso T, editor. Trajetória histórica e legal da enfermagem. Barueri-SP: Manole; 2007. p. 03-29.

[5] Capra F. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix; 1982.

[6] Baptista TWdF. História das políticas de saúde no Brasil:  a trajetória do direito à saúde. In: Matta GC, (Org.). Políticas de saúde: organização e operacionalização do sistema único de saúde / Organizado por Gustavo Corrêa Matta e Ana Lúcia de Moura Pontes. Rio de Janeiro: EPSJV / Fiocruz; 2007. p. 29-60.

[7] Paim. JS. O que é o sus. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2009.

[8] Almeida-Filho N. Higher education and health care in Brazil. The Lancet 2011;377(9781):1898-900.

[9] Ros MAd. Saúde e desenvolvimento. In: ANCA, editor. Pesquisa participativa - condições de vida e saúde. São Paulo: ANCA; 2008. p. 21-38.
[10] Vasconcelos EM. Educação popular nos serviços de saúde. 3 ed. São Paulo: HUCITEC; 1997.

[11] LEOPARDI, Maria Tereza. Introdução. (5-18) in: LEOPARDI, Maria Tereza. (org.) Processo de trabalho em saúde: organização e subjetividade. Pelotas: Editora Universitária/UFPel, 1998. 64p.

3 comentários:

Poliana disse...

Texto muito bom e bastante explicativo, além de ter a capacidade de fazer com que o leitor, interessado no conteúdo, repense a concepção do que é saúde/doença hoje integrada aos saberes e as práticas atuais dos profissionais da enfermagem e em geral de todo serviço prestado nos estabelecimentos de saúde público ou privado.

Itanna disse...

adorei o texto, ruim é perceber que muitos proficionais de enfermagem não possuem esse mesmo conceito de processo saúde/doença, e continuam a delimitar seu trabalho a apenas cuidar do que está dente. Quando previnir é melhor que remediar.

Daniela estudante de enfermagem disse...

È pssivel pra muitos enfermeiros recém formados exercerem uma profissão digna, de como a sociedade esperam e precisam. de tal maneira que sejam reconhecidos por pessoas que tenha tido do cuidador um bom cuidado de certa maneira cuidando em todos aspecots fisico ,emocional, é etc...penso eu que por existir um brasil assim ainda como existe pode até existir esse tal enfermeiro mais é em pouca quantidade. Mas no entanto quando mim formar quero estar muito bem colocada nesse texto saúde doença.