20 fevereiro, 2012

A PORTA - PORQUE DECIDI FAZER O CURSO DE ENFERMAGEM



Na minha frente uma paciente de 26 anos. Ela está nua deitada de bruços na cama. Da virilha até a perna esquerda uma ferida aberta em carne viva. São 45 dias de internação no Hospital Cajuru em Curitiba, Paraná. Ela está deprimida, não tem muita esperança de ficar boa e voltar para casa. Estou ficando preocupado. Já são 15 dias cuidando dela, mas não vejo nenhuma melhora da ferida e do quadro geral.
Quem sou eu?
Meu nome é Ernande Valentin do Prado, eu sou Auxiliar de Enfermagem recém-formado. Estamos em março do ano 2000. São 11:30 de um dia qualquer da semana e a Enfermeira do setor me chama na sala dela. Quer saber por que minha demora no quarto 22. Digo que a paciente precisa de maior atenção, pois está ficando deprimida, estou preocupado com o desanimo dela, digo. Ainda acrescento que meus outros pacientes estão bem e todos já foram atendidos, que apenas ela inspira maiores preocupações no momento.
Você não pode fazer isso, diz a Enfermeira. A chefe. Isso o que, pergunto confuso.
Dar atenção especial para uma determinada paciente.
E por que não, pergunto de forma agressiva.
Por que temos que dar tempo igual aos pacientes. Responde calmamente a Chefe.
Quem disse isso? Fico mais agressivo. E acrescento: nem todas as pessoas são iguais, por isso não podem ser tratadas da mesma forma. Elas não têm necessidades iguais, não podem ser tratadas de forma igual. Pessoas desiguais, com necessidades desiguais precisam ser tratadas de forma desigual para ser igual.
Você pensa assim, disse a Enfermeira, ainda muito calma.
Penso, respondo ainda mais irritado com a calma dela.
Então vá fazer o curso de Enfermagem e aí vai poder tomas suas próprias decisões. Enquanto isso quem decide sou eu e deve dar o mesmo tempo para todos os pacientes.
Então tá, respondo calmamente e saio da sala.
Três meses depois eu estava matriculado no curso de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR para os íntimos. Mas antes me matriculei em um cursinho pré-vestibular muito barato que ficava em uma zona de prostituição no Centro de Curitiba. Matriculei e frequentei quase três semanas, não de forma contínua, mas juro que tentei ir às aulas. Alguns professores eram muito engraçados e me distraia com eles, embora não conseguisse decorar nada do que eles me pediam. Outros só me revoltavam, como o de História.
A primeira vez que ele me irritou foi quando em uma aula sobre a segunda guerra mundial disse que Hitler era um Zé Mané fracassado na vida que endoidou, pirou o cabeção e fez uma guerra. Achei aquilo um desrespeito à humanidade. Como pode um Zé Mané ter praticado tanto mau, ter espalhado o terror e convencido uma nação inteira que matar Negros, Comunistas, Homossexuais e Judeus não era crime. Mas aguentei firme. Pensei – não preciso acreditar no que o professor fala, só responder a prova do vestibular.
Porém quando em uma aula sobre o comunismo o mesmo professor disse que Karl Marx era um sujeito que explorava o sogro para se manter financeiramente eu decidi que não frequentaria mais o cursinho. Inclusive pedi meu dinheiro de volta e tive muito trabalho para conseguir. Mesmo desconfiado que assim não conseguisse passar no vestibular, lá fui eu. Fiz três dias de provas.
No dia da divulgação do resultado estou de plantão à noite. Agora já estou trabalhando no turno da noite, consegui essa transferência para poder estudar.
As 19h30min estou na farmácia, que funcionava no subsolo. A funcionária da farmácia está nervosa. Mexe sem parar no computador e não me atende. Estou ficando nervoso e pergunto o que tá acontecendo. Outras pessoas já formam fila. Ela diz que os filhos fizeram o vestibular e que quer ver o resultado na internet. Fico curioso e pergunto, tem internet aí. Ela diz tem. E eles fizeram vestibular para que?
Enfermagem, responde a funcionária. Eu também fiz, digo. Será que pode ver se meu nome está aí?
Ela olha meu crachá. Olha para tela e em alguns segundo diz. Passou.
Tá falando sério?
Tô. Seu nome não é Ernande Valentin do Prado?
É. Respondo. Passou, vai estudar com minha filha.
Posso entrar aí e ver na tela, pergunto.
Assim você quer demais. Sabe que não pode entrar na farmácia. Mas levanta-se e abre a porta e eu entro e meu nome está na lista.
Passei. Vou estudar Enfermagem. E sei que isso vai custar caro. São quatro anos de economia. Quatro anos sem dinheiro. Quatro anos trabalhado de noite e estudando de dia. Mas tem a bolsa de estudo para funcionários, penso aliviado. Só tenho que pagar 25%, mas mesmo assim não vai ser fácil. Mas em compensação vou poder organizar o trabalho como acredito que deve ser.

3 comentários:

anapaulajesus disse...

Parabéns exemplo de pessoa o Senhor Hoje sei pq ha decidacão é fundamental mostrou ha na história que tudo que se sonha é capaz,de realizar basta colocar metas na minha vida que se realizar parabéns Que Deus proteja sua vida prof Ernande.

anapaulajesus disse...

Exemplo de força de vontande e decidacão de vencer parabéns.

Fest Folia disse...

Oi Ernande enfermagem está no seu sangue,voce para eu e um grande exemplo. penso é quero agir como voce. Diega costa