03 dezembro, 2011

MEMÓRIAS - DESUMANIZAÇÃO NOS SERVIÇOS DE SAÚDE


Quando era estudante de Enfermagem em Curitiba conseguia me sustentar trabalhando como Auxiliar de Enfermagem, neste tempo no turno da tarde. O hospital era muito famoso e tido como um dos melhores da capital paranaense. A gestão era de uma ordem religiosa católica. Já por essa época atendia-se principalmente aos convênios e particulares, mas como havia residência médica ainda se mantinha atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo no setor cirúrgico.
Era comum após cirurgia as pessoas retornar para acompanhamento ambulatorial. Em uma tarde uma menina de 9 anos esteve no ambulatório para retirar a sutura e ser reavaliada. Veio acompanhada da mãe e do pai. Era visível que se tratava de pessoas simples. Viajaram horas para estar ali.
O residente responsável de plantão foi avisado e, como de costume chegou com mais de uma hora de atraso. Para ser sincero com quase duas horas de atraso. Entrou na sala onde a menina já estava esperando e começou o procedimento. Eu assistia como funcionário da instituição. Meu trabalho era preparar a sala para o atendimento, receber a pessoas que seria atendida e no final arrumar a sala. O procedimento era muito simples: retirar a sutura da região lombar da criança.
Nesta tarde, como de costume, este médico estava muito nervoso e mal humorado. Provocou mais dor do que o necessário na menina e não conseguiu retirar o ponto.
Ela, depois de muita paciência, começou a protestar e a não colaborar. Então ele segurou a menina com forço contra a maca. E gritou com ela enquanto empurrava a pinça com força.  A menina gritou, se debateu e começou a chorar. O médico gritava que não tinha conseguido retirar o ponto, que ia infeccionar, que ela não colaborava e coisas assim. Os pais ficaram perplexos e sem saber o que fazer diante do descontrole do profissional.
O pai ainda tentou reagir e foi agredido verbalmente. Lembro que em determinado momento impedi que ele continuasse as agressões verbais contra os pais e as agressões físicas contra a menina.  
Hoje tenho certeza que teria impedido o MÉDICO de começar com a violência física contra a menina, o que teria impedido todas as outras formas de violência posteriores. Mas na época pouco fiz. Por conta disso me culpo até hoje.
Mais tarde, depois de eu mesmo ter retirado a sutura, prontifiquei-me a ser testemunha em caso de denuncia. Mas, como esperado, o pai não quis dar queixa.
Inconformado procurei a chefia para denunciar internamente e tentar fazer alguma justiça. Mas nada aconteceu.
Era comum este médico residente fazer suas tarefas de qualquer jeito. Em outra oportunidade deixou agulhas contaminadas em um curativo que feriu outro profissional. Outra vez o vi chegar na recepção e gritar para todos que aguardavam: “não é responsabilidade minha atender vocês. Estou atendendo de graça para fazer um favor.”
Essa história ilustra o perfil de parte dos médicos brasileiros. Pessoas que estudam em escolas públicas, pagas com dinheiro de todos. Não demonstram nenhum compromisso social e pensam estar fazendo favor para os outros, desconsideram totalmente o SUS e a Constituição Federal. Não têm consciência de que dependem da permissão de outros seres humanos para aprender com seus casos, corpos e dramas.
Este perfil deformado de profissional e de ser humano é causado ou potencializado pelo  tipo de escola que frequentam, mas principalmente pela forma de ingresso as escolas de formação que privilegia determinada classe social.  Pela não exigência de contrapartida do estudante após sua formação. Pela estrutura arcaica de professores e universidades que não conseguem se renovar e continuam centrados nas especializações biomédicas voltadas para o mercado sem levar em conta as necessidades reais da população.
Nada justifica que a sociedade continue aceitando esse modo de ser, a não ser o fato de que toda sociedade acreditar que não é possível viver sem médicos, que não existe serviço de saúde sem médico.
É preciso que todo profissional não médico e médicos comprometidos anunciem em alto e bom som que não precisa ser assim. Que há como fazer de outra forma. Por isso o título provocativo deste texto.
Afastar esse tipo profissional do convívio com a população e com os outros profissionais da área de saúde é fundamental e perfeitamente possível em algumas áreas. Em Atenção Primária isso só não acontece ainda por questões ideológicas. Por que se naturalizou, pelo poder político e ideológico da medicina, que o serviço não pode ser realizado sem eles. Mas isso não é natural, é uma construção cultural e se foi construído pode ser descontruído. Essa desconstrução é fundamental para oxigenar o serviço e a saúde.
Essa desconstrução precisa ser feito sem deixar a população que demanda cuidados de saúde sem atendimento, pois a ideia é melhorar o atendimento e não precarizar ainda mais.

Um comentário:

Justem,... disse...

Amigo não conheço vc, Não conhecia seu blog, e fui conhecer somente ocm essa postagem. Magnífico o seu pensamento, e me deixa muito feliz saber que isso parte de um colega enfermeiro. Infelizmente a luta contra essa falta de Humanização é árdua, mas não é impossível.


Antes de ter comprometimento ético com colegas de profissão, devemos ter comprometimento ético e moral com os pacientes.

Meu facebook é Felipe Justem.
Abraços.