27 julho, 2011

O GRÃO DE FEIJÃO, ALICE E O SERVIÇO DE SAÚDE


Domingo Alice introduziu um grão de feijão no nariz. Nada de mais para uma menina de 3 anos e alguns meses. O curioso é que dois dias antes eu pensava na solidão de pai: “essa menina não faz nenhuma loucura. Não coloca coisas no nariz, na orelha como as outras crianças.” Foi só pensar e aconteceu. Será premonição ou mero acaso?
Melhor nem pensar.
Hoje (passado o susto e o quase desespero) perguntei a um colega que se prepara para ser pai o que ele faria quando a filha enfiasse um feijão no nariz. Ele disse que me ligaria (pois sou enfermeiro) para saber o fazer. Então perguntou por que eu queria saber e respondi que para lhe preparar. Ele pensou que era praga (a gente deve tomar muito cuidado com o que fala). Imaginei que estava lhe preparando para o que a filha pode vir a fazer. Ele que eu estava lhe jogando uma praga.
Mas comunicação é assim mesmo. O natural, dizia uma professora de linguística, é a gente não se entender. Um fala e quer dizer uma coisa e o outro entender coisa completamente diferente. Ela frisava que o fato de algumas pessoas se entender é espantoso.
Mas por coincidência eu também liguei para um amigo para saber o que fazer. Ele é pai e enfermeiro de pronto socorro. Por sinal o melhor que já vi trabalhar em pronto socorro.  Era capaz (no tempo de escola) de puncionar veias em membros superiores sem garrotear. Puncionava veia subclávia com muita facilidade. Artéria. Entubava em 3 segundos contados no relógio. Também desenvolveu uma técnica para passar sonda vesical sem o equipamento necessário em situação de emergência. Ele é mesmo muito bom e trabalha em um grande pronto socorro.
Depois de falar com ele fiquei mais tranquilo.
Alice enfio o grão de feijão no nariz por volta das 11:00 horas. Ele ficou preso na cavidade nasal. Não estava profundo. Dava para ver a olho nu sem nenhuma dificuldade. Não era um grão grande. Inclusive não impedia a passagem de ar e nem incomodava tanto a ponto dela mudar sua rotina de brincadeira, de se alimentar.
Tentei tirar com uma pinça e realmente teria consegui sem dificuldade se os reflexos e o medo natural de uma criança não lhe impedissem de colaborar mais do que já estava.
Fiquei muito nervoso e com medo quando percebi que não conseguiria retirar o feijão. Acho que qualquer pai ficaria.
Mas meu nervosismo e medo não eram pelo risco de uma bronca aspiração, como é o medo de muitos profissionias de saúde. Inclusive de colegas. Mas de ter que levar Alice em um hospital para um procedimento profissional.
Pode parecer estranho um enfermeiro ter medo de hospital. (Na verdade não tenho nenhum medo de hospital, mas das pessoas que o habita) infelizmente minha vivencia em hospital como paciente ou acompanhante é péssima. Inclusive tenho alguns textos sobre isso: O ESTADO AS COIAS. A PRÁTICA E O DISCURSO.  POR QUE A GENTE É ASSIM.
Após o almoço, ainda muito nervoso, mas vendo Alice brincando sem dificuldade, fui dormir um pouco, pois quando se tem um grande problema e não se sabe o que fazer, às vezes pode ser bom não fazer nada. Pensei que ao acordar (caso conseguisse dormir) teria uma solução.
Quando acordei descobri que Larissa, (minha esposa) tinha levado Alice ao serviço de saúde. Relatou que foi bem atendida pelo médico, que ele foi muito atencioso e cordial. Isso para mim foi um espanto terrível (e bom). Disse ela que em compensação a enfermagem foi grosseira (coisa muito comum ultimamente). Para variar não tinha enfermeira, só técnicos. Mas de fato não muda quase nada quando tem. Em outra situação fui ao hospital e tinha enfermeira e foi ainda pior. Nem me deixou dizer o que sentia. Foi logo dizendo: não tem vaga.
Mesmo o médico sendo cordial, nada conseguiu fazer. Disse inclusive que não tinha feijão no nariz de Alice. Que poderia até ter antes, mas que já devia ter saído sozinho, pois nem com a luz do otoscópio conseguiu ver. Uma conclusão absurda, pois a olho nu eu continuava vendo o feijão. Mas serviu ao menos para deixar Alice satisfeita. Ela passou a acreditar que não tinha feijão no nariz. (veja que poder tem a palavra do médico - até na cabeça das crianças esse poder funciona. Mesmo quando fala uma besteira sem tamanho.)
O fato é que o feijão continuava na cavidade nasal de Alice e eu não podia ignorar isto para me tranquilizar, como foi capaz de fazer o médico.
A situação dos serviços de saúde no interior é muito difícil. Trabalha-se em instituições que nem podem ser chamadas de hospitalar. Faltam equipamentos simples (como uma pinça para retirar feijão do nariz). Falta coisa mais elementar ainda: aparelho de pressão, termômetro, maca. Medicações. Enfim falta muito coisa básica. Mas, sobretudo, faltam profissionais capacitados, com consciência de sua importância, capacidade técnica, boa vontade. Coragem de ser sincero e honesto com os princípios que jurou defender. Almeida-filho (2011, p. 11) diz que “a força de trabalho ideal para atendimento no SUS – ou seja, profissionais qualificados, orientados para evidência e bem treinados e  comprometidos  com  a  igualdade  na  saúde  –  não corresponde  ao  perfil  dos  profissionais  que  operam o  sistema.
E ele está certo. A crise de recurso humano no SUS não é necessariamente quantitativa, mas qualitativa. Hoje há muitos profissionais trabalhando, mas infelizmente não têm o perfil necessário para atender a demanda da população. Mesmo quando o serviço de saúde oferece as condições necessárias. (O que é raro)
Os profissionais estudam em escolas públicas. Ou seja, o custo do ensino, de sua preparação é dividido por todos. Mas depois de formados querem escolher o que fazer e onde fazer. Não existe nenhuma lei, nenhuma norma que lhes diga que devem prestar serviço aonde à população precisa. Não vamos esquecer que quem financia a formação é a população que depois fica sem assistência. Mesmo quando estudam em escolas particulares o custo é de todos, pois sempre há renuncia fiscal ou bolsa de estudo pago pelo estado. Isso é justo?
Pode-se imaginar que quando se paga (de novo) o atendimento é melhor. Mas na verdade não é. Eu poderia ter levado Alice em um hospital particular. Não seria tão caro. Eu poderia pagar (desta vez), mas tenho tanto medo do serviço particular quanto tenho do serviço público. Os profissionais são os mesmos. São formados nas mesmas escolas. São quase todos da mesma classe e têm, quase todos, a mesma índole. (sei disso na pratica – já trabalhei em hospitais com atendimento particular). A maquiagem a que se submete no trato com os “clientes” não consegue disfarçar o pouco caso que vai na alma. Quem tem caráter, ética, vergonha na cara não consegue fazer diferença no tratamento, no procedimento necessário e insubstituível.
O feijão estava no nariz de Alice. Não tinha nenhum efeito negativo no momento e nem via risco imediato para saúde. Não ao menos até ter que ir a um hospital.
Só de imaginar a truculência do atendimento ficava nervoso demais. Imaginava ela sendo segurando a força, sem paciência. Tendo uma pinça Enfiado em seu nariz. Isso é o que eu conseguia visualizar.
Seria assim mesmo?
Foi assim no local de atendimento em nossa cidade. Depois de um atendimento equivocado e desqualificado concluíram que não tinha feijão no nariz de Alice. Não concluíram que estavam incapacitdos para realizar o procedimento, mas que não tinha feijão. O que a mãe sabia e via. O que sentia Alice foi descartado porque o médico não viu o obvio. Não conseguiu admitir que não conseguia ver o feijão e por isso não poderia ajudar. Calil (2010) diz que a formação biomédica criou a possibilidade de experts em doenças, que não vêem o doente e menos ainda a pessoa. E feijão no nariz também não. Pode até ter pensando, mas ao menos desta vez não disse, que a mãe estava inventando uma queixa só para ir ao hospital.
Esta prática constante no serviço de saúde, ou seja, desqualificar a queixa do sujeito foi abordado em meu primeiro livro: EDUCAÇÃOEM SAÚDE UTILIZANDO RÁDIO COMO ESTRATÉGIA.
Neste caso era uma queixa que se enquadrava perfeitamente no modelo biomédico. Era uma “dor visível” em uma determinada parte do corpo. E quando essa dor não é localizada, o que acontece? O meu maior medo, além da dor física que sentiria Alice durante o procedimento, era ter o sentimento de dor subjetiva dela (do pai e da mãe) desqualificados diante da necessidade de retirar o feijão a qualquer custo.
Sei que com sedação seria mais simples. Mas dificilmente usariam sedação. Ao menos no interior, aonde falta até termômetro. Por isso protelei a ida ao serviço de saúde.
Por acaso alguém já se perguntou por que um serviço de urgência que não tem como retirar um feijão do nariz de uma criança ainda funciona? Não é o gasto com pessoal maior do que os reais benefícios à população? Quanto se gasta com profissionais para que eles quase nada possam fazer? Não seria mais barato e eficiente investir em prevenção e promoção de saúde ou formar um consorcio com outras cidades e montar um serviço de urgência eficiente?
Então, por volta das 19 horas lembrei desse meu amigo que trabalha em um grande pronto socorro público. Liguei.  Ele disse que a sedação com uma medicação apropriada é o procedimento que utilizam. Também disse que se trata de rotina esses acontecimentos. Aí fiquei tranquilo. Pensei comigo: durante o sono tento retirar o feijão e se não der certo amanhã falto ao trabalho e levo Alice ao HUSE  - Hospital de Urgência de Sergipe.
Não tinha medo do feijão, mas de como seria feito a retirada do feijão. De ter que entrar em contato novamente com a capacidade dos profissionais de saúde de não ter nenhuma cuidado. Nenhum tato. Nenhuma destreza. Isso é apavorante, principalmente para um profissional de saúde como eu ou para um profissional de educação que prepara profissionais de saúde.
Os profissionais de saúde, seja de que profissão for, perdeu a capacidade de cuidar. Ao menos grande parte deles. Cassell (1985), citado por Valla (1999) diz que a medicina do ocidente é pouco sensível para a expressão humana, enquanto a população apresenta sentimentos intensos que vão além da existência dos indivíduos. A dor e o sofrimento para o médico é física. Já a população não faz distinção tão clara entre as dimensões física e transcendental. E essa incapacidade de sentir a minha dor e da família que me espantava e me afastava da ideia de ir ao serviço de saúde.
Felizmente minha intuição estava certa. Pela manhã, enquanto preparava Alice para ir ao hospital, o feijão saiu sozinho. Na minha mão sem eu nada fazer.
Alegria...foi pouco perto do que senti.
Desta vez não precisei ir ao serviço de saúde. Mas quantas outras pessoas foram? Quantas destas podem dizer que receberam um tratamento digno?
Mas será que precisa ser assim ou melhor, será que sempre será assim? 

REFERENCIAS
·         VALLA, V. V. Educação popular, saúde comunitária e apoio social numa conjuntura de globalização. Cadernos de Saúde Pública, v. 15, p. 7-14,  1999.
·         ALMEIDA-FILHO, N. Higher education and health care in Brazil. The Lancet, v. 377, n. 9781, p. 1898-1900,  2011.
·         Calil LC. Reflexões sobre Ética e o Custo da Consulta Médica. Psychiatry on line Brasil. Rio de Janeiro: 2006 mar 30 [acessado em 26 jul 2010]. Disponível em: http://www.polbr.med.br/ano99/calcons.php .

2 comentários:

Thiago da Silva disse...

Professor Ernande gostei muito desse texto, tanto que resolvi publicá-lo em meu blog também, de forma referenciada é claro para a sua autoria e do seu blog.

Veja aqui:
http://thiagosilva7.blogspot.com/2011/08/texto-do-prof-ernande-grao-de-feijao.html

Eliane Marçal disse...

Puxa que este texto é muito parecido c a minha história! E outra coisa te dugi: crianças adoram "aprontar" de sexta até domingo... Ou seja finais de semanas e feriados quando nem i especialista ta na cidade. Rsrs.Ontem sexta feira ( não sei mas tbem era treze! Rsrsrs) o meu Pedro de três anos e meio colocou um feijão no nariz. Na minha cidade o médico também não viu o feijão. Não havia visão, provavelmente não havia material como uma pinça e não houve nem boa vontade...Fui correndo p a cidade vizinha...houve via vontade, havia material... Mas o doutor não conseguiu resultado positivo...talvez pq não chegou a sedar o Pedro sei lá. Voltamos p casa. Ele dormiu super bem pq estava bem. Confesso que dormi bem também; porém sonhei com o feijão. Sonhei que ele saiu sozinho. Espero que eu tenha a sua sorte e Pedro a sorte da Alice! Um abraço.