01 agosto, 2010

A DEMOCRACIA NOSSA DE CADA DIA

Fui filiado ao PT - Partido dos Trabalhadores por mais ou menos 12 anos. Uma coisa que aprendi com o PT daquele tempo é que uma decisão tomada pela maioria em assemblei não deve e não pode ser modificada pela conveniência da executiva ou da minoria. Alias, foi também por isso que me desliguei do partido em 2001.

Naquele tempo o Diretório do PT na minha região, Fazenda Rio Grande - Região Metropolitana de Curitiba tinha muitos filiados. Pessoas do POVO mesmo: operários, professores, pequenos comerciantes, estudantes, sindicalistas, pessoas de associações de moradores, donas de casa, pedreiros, mecânicos, auxiliares de enfermagem, dentista, lideres de movimentos de toda ordem - sem terra, sem casa, sem emprego. E todos eram ouvidos e uma decisão tomada por essa gente era sagrada, mesmo que não representasse a vontade da direção do Partido. E isso frequentemente acontecia.

Quando filiei-me ao PT era metalúrgico e cursava o segundo grau no Colégio Décio Dosse[1]. Trabalhava em uma fábrica de autopeças em Curitiba. Levantava por volta das cinco da manhã todos os dias e ia dormir por voltas das 23h30min. Fabricava peças para carros que nunca conseguiria comprar com meu salário. Nada diferente do que vivia a maioria das pessoas da minha cidade, que nem chegava a ser um município de verdade. Íamos lá apenas para dormir. Passavamos o dia todo trabalhando e gerando renda em Curitiba. Mas na hora de usufruir o que a metrópole tinha de bom não podíamos, pois éramos de outra cidade. Além disso, o Município tinha Dono. Seu nome Geraldo Cartário. Deputado muito influente e poderoso. Na verdade quase um PODEROSO CHEFÃO. Em uma campanha eleitoral, por exemplo, ele derrubou o muro da casa de um eleitor porque este pintou o nome de outro candidato concorrente seu.

O PT nesta cidade nasceu combatendo tudo isso e seguiu sua missão diária com chuva ou sol, com eleições a vista ou não. Era um trabalho cotidiano praticado por pessoas simples que encaravam a política como missão de cidadania, como forma de autoafirmação e nunca como profissão. Nossos candidatos, em época de eleição, eram escolhidos pela maioria e a essa maioria competia fazer sua campanha, inclusive pagar por ela.

Era muito bonito ver as pessoas dedicando-se a campanha dos companheiros. E isso acontecia geralmente após trabalhar o dia inteiro, ou antes de ir para trabalho – o que quer dizer de madrugada nas filas de ônibus. Isso incluía também dedicar os fins de semana para fazer arrastão: bater de porta em porta para pedir votos – aprendemos com os TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. Tudo isso, como já disse, sem receber um centavo em troca ou promessas de emprego ou qualquer cargo que fosse. Cargo de assessoria também era uma decisão coletiva.

Em compensação depois das eleições os eleitos sabiam que o mandato não lhes pertencia totalmente, que tinha a quem dar satisfação, que tinha uma maioria para ouvir antes de cada projeto, antes de cada decisão. E isso, por mais difícil que fosse acontecia. Depois da segunda eleição que, elegemos dois vereadores e toda terça-feira às 19 horas os vereadores se reunião para planejar a semana, os projetos e as manifestações na câmara de vereadores. Era uma reunião aberta a todo filiado do Partido.

Desta forma nosso Diretório ganhou fama na região, pois mesmo dentro do PT essa era uma postura já caindo em desuso. Nossas posições sempre foram radicais demais para toda região. Éramos o único diretório da região a não aceitar coligações fora do arco das esquerdas e a se definir como socialista. Consequentemente formos também o único diretório da Região, com exceção de Curitiba, a eleger representantes para câmara de Vereadores. Era também o diretório mais novo de todos.

Não apenas elegemos nossos vereadores, fizemos os dois vereadores mais votados da cidade e gastando menos de dez por cento do que gastavam outros partido e isso por canta do trabalho voluntários dos militantes.

Mas por que os militantes trabalhavam no sol, na chuva e ainda tiravam dinheiro do bolso e pagavam para isso?

Faziam isso porque acreditavam e acreditavam porque tinham controle das decisões. Não eram massa de manobra. Todos eles eram ouvidos, respeitados e tinham suas decisões postas em prática. Acredito que esse é o segredo.

No PT era comum haver muitas votações. Isso quando não se conseguia chegar a um consenso depois das discussões. Porém no Diretório Municipal do PT de Fazenda Rio Grande não conseguir consenso não era uma realidade. Passamos mais ou menos cinco anos sem fazer votações para tomar decisões. O consenso era sempre ossível. Mas não economizávamos reuniões, horas e horas de discussões. Em nosso método não havia vencidos e vencedores e no final todos assumiam o que fora decidido.

Como disse, e essa é a razão deste texto, uma decisão tomada em assembleia não pode ser modificada, a menos que seja por unanimidade e de preferencia em outra assembleia. Mesmo contraria a posições pessoais. E penso que é justamente esse o segredo e a força da democracia: respeito a opinião do outro e ao jogo político legitimo e honesto.

No PT entrei como operário e logo me transformei em um dos dirigentes. Mas nunca deixei que isso me subisse à cabeça. Ocupei todos os cargos disponíveis no Diretório. Inclusive alguns em esfera regional. Mas nunca deixei de ouvir e respeitar a decisão do mais simples e calado militante que ocupavam o fundo da sala de reunião. Como disse, inclusive em um vídeo: SEI DE ONDE VIM E TENHO ORGULHO DISSO.

Essa postura, que ouso chamar de democrática, acompanha-me em tudo que fiz até hoje. E espero não perder jamais. E apesar de saber que o PT não é mais assim, que muitos dos antigos companheiros não são mais assim, agradeço aos anos que passei no Partido, pois aprendi muito e trago comigo a radicalidade daqueles dias.

A tradição brasileira é presidencialista e o PRESIDENTE tem o poder de tomar decisões baseadas em sua própria vontade, independente do que já havia sido debatido. Nunca fiz isso quando estive em posição equivalente e espero nunca fazer. Se depender só da minha vontade isso nunca farei.

É por conta da minha pouca ou nenhuma disposição em tomar decisões a revelia da maioria que prefiro não ocupar funções onde haja pressão para que isso aconteça.

Decisões em consenso exigem negociações, afinidades, sobretudo de objetivos, empatia, vínculos. Coisas cada vez mais difíceis de construir nas relações efêmeras da atualidade. O “toma lá da cá” é uma regra de boa convivência entre os pares no dia-a-dia. Não suporto isso, não faço isso, tenho vergonha disso. Não sei nem cortar fila.

E como sou radical, graças a Deus, não consigo fazer isso nem para mudar o dia e a hora de uma reunião marcada pela maioria em “assembleia”.



[1] Volto a esse tema em uma outra oportunidade.

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