05 junho, 2010

PENSANDO O MODELO ASSISTENCIAL DA REGIÃO NORTE DA BAHIA E CENTRO SUL DE SERGIPE

Com o intuito de contribuir com as reflexões a respeito do desenvolvimento da região norte da Bahia e Centro Sul de Sergipe, gostaria de fazer alguns comentários sobre as necessidades do serviço de saúde para o atendimento da população da região.

Não é novidade para ninguém que o serviço de saúde da região sofre com graves problemas relacionados à infra-estrutura física, material ou humana. Esses problemas não são apenas de origem financeira, embora esse ponto seja muito relevante, nem exatamente de gestão, embora seja uma situação grave a gestão político administrativa na região. Os problemas são principalmente relacionados à compreensão do papel que os hospitais podem e devem desempenhar para garantir a saúde da população.

Partindo desta premissa é que quero argumentar em favor da implantação de Unidades resolutivas e adequadas as características da região como forma de melhorar a qualidade de vida do povo.

Em muitos lugares, e aqui não é diferente, tenta-se resolver as questões de saúde através de serviços hospitalares. Mas com freqüência os hospitais não conseguem fazer, pois são inadequados para o que os políticos e técnicos da área acreditam. Mesmo hospitais de ponta não conseguiriam resolver os problemas que temos aqui.

Os hospitais universitários deste País são em sua maioria de ponta. Desempenham uma assistência à saúde/doença que é referência para vários países. Exemplos disso podem ser encontrados em diversos lugares, como por exemplo: hospital de Clinicas do Paraná, referência maior em transplante de medula óssea não só no Brasil, mas na América Latina; o hospital Evangélico de Curitiba, referência em tratamento de queimados também em nível mundial.

Mesmo sendo referencia, todos ou quase todos os hospitais universitários trabalham com dificuldades enormes e na base destas dificuldades está a deficiência na organização da atenção básica. E não é segredo que em nossa região as deficiências na atenção básica são gritantes e, talvez, maiores que em outras. Exemplo desta deficiência e ineficiência é a superlotação do Hospital João Alves em Aracaju.

Os hospitais, sejam eles Universitários ou regionais, independentes da região, embora isso seja alvo de criticas em todo mundo, está mais voltado para o raro, o diferente e não para as reais e maiores necessidades do processo saúde/doença da população.

As doenças mais prevalentes em nossa região não despertam o interesse dos profissionais da área de saúde e dos estudantes. São doenças simples e de simples tratamento, como por exemplo, doenças diarréicas e respiratórias, entre outras. Mas estas doenças podem e devem ser tratadas em unidades de saúde com mais vantagens, inclusive financeiras. Embora, na maioria das cidades isso não aconteça da forma como deveria e acabam sendo encaminhadas para os hospitais. Não são tratadas nas unidades de saúde por diversos motivos, entre eles:

A. Falta de serviços de atenção básica na quantidade suficiente para atender toda população. Entra nesta consideração a adequação geográfica das unidades;

B. Serviços ineficientes com pessoal despreparados e desmotivados – sobretudo os profissionais com formação universitária;

C. Serviços que funcionam apenas meio período ou menos que 5 vezes na semana – isso quer dizer que quando os usuários precisa não encontra ele funcionando;

D. Modelo assistencial inadequado as reais necessidades dos usuários, mas praticado por comodismo de gestores e servidores;

Um hospital terciário, que não é a necessidade de nossa região tem condições, segundo parâmetros do SUS, de atender entre 5% e 7% das necessidades hospitalares da população. Um hospital secundário, segundo os mesmos parâmetros do Ministério da Saúde, poderia suprir as necessidades hospitalares de 15% da população. Já a atenção básica pode suprir a demanda em saúde, que é muito mais ampla que a demanda hospitalar, de 80% da população.

O que quero considerar, além do fato de uma unidade de saúde ter um potencial enorme, quando se pensa em números de pessoas atendidas em suas reais necessidades, é que um hospital, mesmo sendo modelo não tem como suprir a demanda por saúde da população. Mesmo que a região tivesse recurso suficiente para montar um hospital de ponta, coisa que não tem, ele se afogaria em um mar de deficiência e ineficiência, que é o que vivemos, de um modo geral, na atenção básica. Esse hospital seria só mais um a viver super lotado e sem conseguir atender e satisfazer as necessidades maiores da população.

Se a atenção básica não funcionar bem, todo e qualquer hospital vai viver super lotado e tendo que tratar de situações para as quais não tem competência. E essa demanda vai ser criada em grande parte por encaminhamento de unidades de saúde de atenção básica ineficientes.

Muitas cidades implantam unidades de saúde de uma forma que não tem como funcionar, pois desconsideram totalmente os aspectos técnicos. Por exemplo: uma Unidade de Saúde da Família, que funcione como diz o Ministério da Saúde, ou seja, oito horas diárias, cinco vezes por semana, com no mínimo uma Enfermeira, um médico, auxiliar de Enfermagem, dentista e ACS só tem capacidade para atender uma área adscrita com até 4 mil pessoas. Mas sabemos que essa não é a realidade da região. A grande maioria das Equipes de PSF não trabalha oito horas diárias e nem todos os dias da semana. Uma equipe de saúde da família não tem como responsabilizar-se por mais que 4 mil pessoas, pois seu trabalho é focado na Vigilância e na promoção à saúde. Se não for assim não funciona. Porém, como fazer vigilância e promoção se há no município apenas uma equipe para toda cidade?

Nestas condições a equipe vai trabalhar como ambulatório e não vai diminuir a concentração de pessoas necessitadas na porta do hospital. Além disso, as filas vão começar na madrugada, pois será a única porta de entrada do município. E não tem como ser diferente com apenas uma unidade centralizada. O mais condizente seria começar a implantação da Estratégia Saúde da Família pelos bairros e povoados, pois aí sim diminuiria a demanda no hospital e criaria solução onde implantada.

Pode-se dizer que outras unidades virão depois da primeira, o que não deixa de ser verdade, mas quando isso acontecer vão seguir o mesmo modelo, centrado na demanda espontânea, ou seja, na fila e no diagnóstico médico. Não vai conseguir cumprir a função maior de cuidar e promover saúde.

Uma unidade de saúde da família funcionando dentro dos parâmetros do Ministério da Saúde cumpriria as seguintes funções:

· Ser paradigma de funcionamento da atenção básica;

· Ser exemplo de mudança do modelo assistencial;

· Valorizar terapêuticas e soluções tradicionais da região;

· Fomentar o trabalho transdisciplinar;

· Organizar a promoção de saúde articulada com diversos setores da comunidade;

A Atenção Básica vem sendo desenvolvida na região e mesmo em outros lugares do Brasil, sem que seu potencial seja aproveitado pela comunidade e os profissionais.

Hoje as unidades de saúde são pensadas de forma distorcida, principalmente por conta da educação praticada em larga escala nas universidades, como um hospital simplificado/piorado para pobres. Não se leva em conta as tecnologias desenvolvidas no atendimento das necessidades da população. Desconhecem seu modo particular de funcionamento e quando muito, tentam impor o modo de trabalho hospitalar, que é o que profissionais e gestores conhecem no cotidiano das unidades de saúde. E assim uma rica possibilidade de atenção à saúde da população é desperdiçada.

Muitas Universidades já administram unidades de saúde em, mas não com foco na mudança do modelo assistencial e sim como prestação de serviços. Essas unidades, profundamente ligadas as escolas perdem uma chance grande ensinar os estudantes um outro modelo assistencial mais apropriado ao serviço de atenção básica.

Penso que este breve texto pode contribuir com avaliações do serviço de saúde da região.

Sobre esse tema tenho um outro texto mais detalhado que preparei para uma publicação sobre o desenvolvimento região: A contribuição do setor saúde ao desenvolvimento regional. Nele detalho melhor alguns itens aqui apenas citados.

Entendo que as considerações que fiz não são a verdade absoluta, mas estão condizentes com a linha de pensamento do SUS.

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