19 julho, 2009

A ENFERMAGEM E A IMPARCIALIDADE

Estes dias conversamos em sala de aula sobre a falada imparcialidade. Existe possibilidade de imparcialidade ou todos devemos ter um lado?

Aí lembrei de algumas história do tempo em que escrevia ficção e deu vontade compartilhar. O que isso tem a ver com Enfermagem e Imparcialidade?

Não sei e não quero explicar...

1 P.S.

A criança começou a tremer...deve estar entrando em choque...alguém grita pelo médico...a mãe está desesperada...
Quando ela começou a sangrar eu sabia que não ia parar mais...a mãe agarrou em meu braço e gritou: faz alguma coisa pelo amor de Deus.

2 O último raiar do sol

A viatura só acelerou quando já estava próximo do p.s. .
Mesmo com o curativo o sangue não parava de jorrar. Na porta correram com uma maca, mas quando olharam para Bárbara alguma coisa mudou. A urgência...
O relógio marcava 4:50 da manhã de um sábado qualquer. E a noite parecia que nunca ia ter fim. Que aquele sol prometido nunca mais ia raiar. Nunca mais...
Bárbara não sentia, não mexia, não estava linda, poderosa, purpurinada. O pescoço pendia para o lado. Os lábios estavam levemente roxos. As mãos geladas. O vestido rasgado, a meia fina desfiada.
O “home” falou: briga no bailão, enfiaram uma tesoura nela.
Na sala de emergência alguém olhou de longe, irritado, calçando uma luva de borracha e falou: travesti tem que morrer mesmo.
As 6:15 o sol ainda não tinha nascido, não que eu tivesse visto, mas já não importava mais.

3 Fim de tarde

Eu não queria e nem podia acreditar, afinal de contas ele era tudo na minha vida. Fiquei sentada na sala, parada como uma estátua, olhando pra parede sem ter coragem de falar mais nada.
Ele saiu com as malas e bateu a porta. O teto girava e me faltava ar. Queria gritar e não saia voz, queria chorar e não conseguia, queria morrer para acabar com aquela dor que eu não podia e nem tinha como agüentar
Depois passou.

4 Pato

Faz três dias que a vila está sem água. A coleta de lixo não é feita há uma semana. E ainda por cima faz três meses que não chove.
Amanhã vai ter um comício e o mesmo cara de quatro anos atrás vai prometer de novo resolver estes problemas. Se bobear promete fazer chover. E o pior é que tem gente que vai acreditar.

5 Quase rap

A PM numa ronda no asfalto prendeu uma galera de adolescentes lá da vila
Que pixavam muros brancos de mansões de brancos bacanas
Que ganham a vida trabalhando para prefeituras pobres de povos fudidos
Que não têm nada, mas pagam altos salários a pessoas brancas amigas do prefeito
Ou do governador ou do deputado envolvido na máfia do desmanche (e prefeitos, governadores, deputados só têm amigos brancos, não importando a cor da pele).

Baixaram a porrada neles
Por serem adolescentes sem amigos importantes ou carro importados ou dinheiro para comprar imunidade
Do jeito que todo branco com dinheiro faz.

Os adolescentes lá da rua eram todos pretos
Ou quase pretos de tão pobres
E todos sabem como são tratados os pretos ou quase pretos ou pobres
(aí não importando a cor da pele, mas todos sabem que os pretos são a maior parte dos pobres e pobres brancos são como pretos)
E todos sabem o que são pobres pra eles.

E os adolescentes pobres, pretos e sem carro importado e sem escola e sem lazer
Acusaram o prefeito de ser o mandante do espancamento.

O prefeito é evangélico e branco
Mas foi eleito por brancos, pretos e quase pretos, na maioria tão pobres.

O prefeito negou tudo
E elogiou os adolescentes pobres e sem escola, lazer e futuro
Chamando-os de meus filhos
E comoveu a quase todos os brancos e pretos e quase pretos e todos pobres que lhe ouviam
Mas o discurso foi em publico
E todos sabem como são discursos em publico de prefeitos, governadores, deputados, delegados e juizes
Quase todos brancos ou quase brancos de tão iludidos com seus cargos.

Mas as lesões são verdadeiras nos adolescentes pobres da vila
Quase todos pretos ou quase pretos de tão pobres
E quase todo preto é pobre ou quase todo pobre é preto
Ou tratado como preto, pobre fudido e sem futuro
Por outros pretos ou quase pretos ou quase brancos sem dinheiro e sem chance
Que obedecem a ordens de brancos prefeitos, delegados ou juizes, que podem até ser pretos ou quase pretos ou quase brancos, mas pensam como brancos ou sentem-se como brancos
Parte do sistema e acreditam que pretos ou quase pretos ou quase brancos têm que ser tratados como pobres
E todos sabem como são tratados os pobres
Sejam pretos quase pretos ou brancos.

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