14 maio, 2008

SEMANA DE ENFERMAGEM

Hoje é 13 de maio de 2008, ou seja, um dia depois do dia do Enfermeiro ou da Enfermeira. Estamos em plena Semana da Enfermagem. O efetivo da categoria em Rio Negro não é grande, mas também não é desprezível. Temos campo de Trabalho no Hospital, no Centro de Saúde e nas Equipes de ESF. No entanto nunca chegamos a realizar a semana de Enfermagem ou mesmo uma comemoração. Ano passado foi quando chegamos mais perto, mas também não aconteceu.
Quando se pensa em realizar atividades relativas à semana de enfermagem pensa-se em uma comemoração, ato de protesto ou reflexão. Mas tudo isso para quem: população, colegas de serviço de outras profissões ou para os próprios profissionais de enfermagem¿
Acredito que para todos, mas principalmente para nós, sendo assim deveríamos preparar essa semana juntos. Mas não é isso que acontece quando se chega com proposta de organizar tal evento. O mais comum é dizer: “organiza que a gente participa”. Isso não é encorajador, pois se não se disponibilizam para contribuir de verdade que garantia há de que participarão¿
Infelizmente não há tradição na enfermagem de reunir-se e refletir sobre seu dia-a-dia, dificuldades, valores e perspectivas. Se isso não é comum no Brasil, imagina em Rio Negro.
Sempre houve aqui dois Enfermeiros (as), uma na Equipe Urbana de ESF – Estratégia Saúde da Família e outro na Rural. Hospital e Centro de Saúde sempre funcionaram sem a presença deste profissional. O que contribui e muito para que os auxiliares e técnicos se sintam mais ligados aos médicos do que aos Enfermeiros, seguindo assim orientações destes profissionais e realizando procedimentos não autorizados. Na maioria das vezes substituindo os médicos em procedimentos exclusivos que estes não querem fazer, como por exemplo, lavagem de ouvido, entre outros.
Isso não era comum apenas entre técnicos e auxiliares, mesmo alguns Enfermeiros que por aqui passaram realizavam procedimentos que não lhes cabiam e deixavam suas funções sem fazer. E por que isso¿
Acredito que isso se deve ao fato de muito profissionais não saber exatamente qual seu papel, sobretudo em Saúde da Família.
Os centros formadores, seja técnico ou graduação, ainda continuam ensinando com base no conhecimento hospitalar e dentro a ótima biomédica. Os conhecimentos de saúde coletiva entram de maneira subalterna e não raras vezes dados por professores desinteressados ou desestimulados.
Os recém formados entram no mercado de trabalho quando muito preparados para atuar de forma única, ou seja, dentro da lógica biomédica. Daí um dos motivos pelos quais a Estratégia Saúde da Família ainda é uma utopia em grande parte das equipes e das cidades.
Um Enfermeiro de Saúde Coletiva seja ela na lógica da Atenção Básica ou ESF não pode se limitar a esperar a doença acontecer e o doente aparecer. Nem tão pouco pode limitar-se a realizar palestras nas escolas. É preciso ir além do que se aprendeu nas escolas. Criatividade e disposição são fundamentais. É preciso dar um passo adiante. Conhecer e executar técnicas não faz um bom enfermeiro, mas isso não se aprende na escola.
Dominar sinais e sintomas de doenças, aplicar vacina, realizar sondagem vesical, ver pressão, temperatura, pulso, medir, pesar, aplicar injeção, realizar curativos e tantas outras técnicas não faz um bom Enfermeiro. Tudo isso é importante e contribui muito, mas o Enfermeiro de Saúde Coletiva é antes de tudo um MEDIADOR SOCIAL. Ele deve fazer pontes entre a comunidade e os serviços institucionais. Procurar as melhores soluções para cada caso e quando estas ainda não existem contribuir par que venham a existir.
Precisa também organizar o serviço, planejar, prever, sistematizar para que o cuidado exista. É preciso estar sempre em contato com os usuários, mas saber que nem sempre isso é possível, que muitas vezes vai só administrar os cuidados e desta maneira garantir que o usuário vai receber os cuidados apropriados do profissional mais adequado.
A nova lógica de trabalho em Saúde Coletiva é trabalhar na perspectiva da promoção de saúde, lógica esta nem tão nova assim, mas uma realidade distante da perspectiva de grande parte da categoria e das ESF.
Para melhor se explicar vamos conceituar promoção de saúde. Segundo SPERANDIO, CORREA, SERRANO E RANGEL[1], o termo promoção de saúde foi utilizado já nos anos 20 por Winslow e tinha relação com organização comunitária na busca por melhores condições de vida;
1. A declaração de alma Ata, 1978, continua com a visão de participação comunitária;
2. Carta de Ottawa fala de promoção de saúde enquanto capacitação da comunidade para que ela mesma possa buscar melhorias.
Segundo STOTZ e ARAUJO[2], (2004, p.6), “a promoção de saúde viabiliza-se por meio do empowerment” e frisam a participação popular. Para efeito desta argumentação vamos apenas dizer que a palavra ou o conceito de empowerment tem haver com qualificar ou dar condições para comunidade se organizar. A visão que nos importa, quando se pensa em promoção de saúde de uma forma efetiva e não apenas de aparência institucional, tem haver com Wallerstein (1992 e Vasconcelos, 2003) citado por Stotz e Araújo:. Empowerment tem haver com poder ou ganho de poder.
Nesta linha de argumentação vamos dizer que promoção de saúde tem haver com capacitação da comunidade para ganho de poder. Ninguém pode, principalmente de forma institucional, “dar” ou “dividir” poder, até porque, segundo Demo[3] (1990) dividir poder é incompatível com o estado ou com as instituições. Ganho de Poder é uma conquista. O que o Enfermeiro comprometido com a promoção de saúde pode fazer é contribuir para tal, mas empowerment é uma tarefa coletiva que não pode ser dada ou aceita, tem que ser conquista.
Toda essa argumentação é para dizer que o Enfermeiro tem um papel muito importante dentro da saúde coletiva neste País. A promoção é uma forma de trabalhar que exige comprometimento de todos os profissionais, da Secretaria de Saúde e dos gestores, mas principalmente dos Enfermeiros, mas não de qualquer Enfermeiro, e sim do profissional comprometido com sua gente.
O primeiro juramento do Enfermeiro diz: “Juro dedicar minha vida profissional a serviço da humanidade, respeitando a dignidade e os direitos da pessoa humana...”
Essa não é uma profissão para quem não conseguiu ser médico. Existem sim pontos de convergência com os médicos, assim com existem com a nutrição, a farmácia e muitas outras, mas ser Enfermeiro é muito mais que aprender um pouco de todas as outras profissões. Existe um corpo de conhecimentos próprios e um campo de atuação só nosso que muitas vezes fica abandonado em nome de tarefas que não são nossas ou que são secundarias a nossa verdadeira função. Que é em saúde coletiva MEDIAR O EMPOWERMENT da comunidade. Mas que fique claro que este mediar é comprometer-se, contribuir, caminhar junto. Nenhum profissional da saúde tem um corpo de conhecimento e uma formação melhor para desempenhar essa função, a não ser em um nível pessoal.
Trabalhar numa perspectiva de promoção de saúde não é possível desprezando a participação popular. E é aqui que queria chegar:
Estes dias caminhávamos, ou melhor, pedalavamos pela MS 080, eu e um colega Enfermeiro. Lá pelas tantas ele disse que entre “fazendeiros e Sem Terra” está 100% com os Fazendeiros. Ai lhe mostrei vastas áreas de terra e disse: “o que você vê¿” Ele respondeu que via arvores, pastos, rios e eu lhe respondi: “eu vejo terra improdutiva.”
Acredito que toda terra teria que ter uma função social. Ele não. Para meu colega ter um título de posse de terra é o suficiente. No que ele via: arvores, rios e pastos eu via terra que poderiam ser cultivadas por quem hoje vive de bolsa família, vale renda e outras formas de assistência social. É claro que nem todas as pessoas que estão desempregadas nas cidades têm condições ou mesmo interesse em plantar ou de viver do cultivo da terra, mas todos que assim pudessem e quisessem deveria poder assim fazer.
COMPARATO[4] (2008) diz:
“Além disso, a regra constitucional de que "a propriedade atenderá a sua função social" (artigo 5º, inciso XXIII) influi decisivamente sobre a proteção desse direito. Em caso de descumprimento do preceito, o juiz não pode, sem violar frontalmente a Constituição, conceder mandado liminar de manutenção ou reintegração de posse ao proprietário.”

Entre proprietários de terras e sem terras a constituição parecer estar ao lado dos Sem Terra, o que não quer dizer que juízes e governos também estejam, pois existe uma grande distancia entre lei e justiça, entre judiciário e justiça social, entre governo eleito e democracia.
Retomando a questão da participação comunitária na conquista do poder. Veja que interessante essa fala:

A desigualdade funda não só a necessidade institucional de preservar os privilégios, mas igualmente a inevitabilidade da resistência e do desejo de mudança, do ponto de vista do desigual. Assim, no principio está a opressão. A redução da desigualdade não cai do céu por descuido, mas será conquistada historicamente, não como produto definido, mas processual. Por isso, participação só pode ser conquistada. Aquela doada é presente de grego, porque vem do privilegiado, não do desigual. A redução da desigualdade que o desigual quer só pode ser aquela que ele mesmo constrói. E aí está sua competência. (Bordenave, 185; Dallari, 184; Demo, 1982d: 153-62 e 1986)[5] (DEMO, 1990, P. 16)

O autor fala em “inevitabilidade da resistência” e isso quer dizer que agora ou no futuro sempre haverão pessoas, instituição ou intenção de resistência na sociedade. Entendo que os Enfermeiros em Saúde Coletiva devem por seu conhecimento e serviço a disposição dos oprimidos. Contribuir para que os usuários possam emponderar-se é promover saúde. Toda luta que visa diminuir desigualdades sociopolíticas e econômicas pode ser promoção de saúde e, portanto função de Enfermeiros, sendo assim não há nada mais estranho a nossa função de cuidar, prevenir doenças e promover saúde do que estar ao lado de fazendeiros, que muitas vezes nada produzem.
Freire[6] (2006, p. 33) fala que o homem tem vocação para ser mais e que o oprimido, ou seja, a fatia da população supostamente alvo da “nossa promoção”, cedo ou tarde lutará contra quem lhe faz menos. Ele ainda faz questão de frisar, e, isso é de extrema importância, que apenas os oprimidos podem se libertar da opressão e ao fazer isso libertará também o opressor.
Precisamos encontrar essa resistência em nossa comunidades e nos aliar, isso se queremos realmente fazer promoção de saúde. Mas temos que nos aliar de igual para igual e não como portadores de uma visão melhor do que seja necessário fazer. Temos que ter sempre em mente que se libertar da opressão e ganhar poder é tarefa insubstituível da própria comunidade ou então não será empowerment e conseqüentemente não será promoção de saúde, e não sendo não estaremos contribuindo, mas adiando o momento em que o homem (nós todos) será emancipado.
Vamos pensar nisto nestes dias da Semana de Enfermagem. Quem somos nós e o que queremos¿

Referências

[1] SPERANDIO, A M G. CORREA, CRS. SERRANO, MM. RANGEL, HÁ. Caminho para a construção coletiva de ambientes saudáveis – São Paulo, Brasil. (sem maiores referencias)
[2] STOTZ, E N. ARAUJO, J W G. PROMOÇÃO DA SAÚDE E CULTURA POLÍTICA: A RECONSTRUÇÃO DO CONSENSO. Saúde e Sociedade V.13, n.2, P. 5-19, maio-ago 2004.
[3] DEMO, P. POBLEZA POLÍTICA. São Paulo: Cortez, 1990.
[4] TENDÊNCIAS/DEBATES (Folha de S. Paulo, 07/05/2008)
[5] Idem nota 9.
[6] FREIRE, P. PEDAGOGIA DO OPRIMIDO. Rio de Janeiro: 44 ed. Paz e Terra, 2006.

Um comentário:

berto disse...

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