27 abril, 2008

ESPECIALIZAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA

Abaixo está um texto produzido para aula de Metodologia científica do Curso de Especialização em Saúde Coletiva, que estou fazendo em Campo Grande - Mato Grosso do Sul. Trata-se de um exercício para os preparativos da monografia, no entando vale a pena ser divulgado, pois traz alguma contribuição a respeito da Estratégia de Saúde da Família.

EQUIPE DE SAÚDE DA FAMÍLIA – O QUE FAZ A DIFERENÇA?


A partir de 1994 o governo federal, através do Ministério da Saúde, iniciou a implantação do PSF – Programa de Saúde da Família. A proposta visava e ainda visa reorientar o modelo assistencial de saúde e por meio dele implantar uma nova cultura de saúde no Brasil. Até que ponto isso deu certo ou está dando certo?

Senna e Cohen (2002) vêem no processo de municipalização da saúde iniciado a partir da implantação do SUS, na década de 90, a raiz de todo processo que culminou com a criação do PSF. Segundo as mesmas autoras, o PSF foi implantado a partir de outras experiências já desenvolvidas por outros municípios, entre essas experiências elas citam o PMF – Programa Médico de Família, desenvolvido em Niterói, RJ, a partir de convenio com o Ministério da Saúde de Cuba.

Independente da forma ou de onde partiu a matriz primeira do PSF, o importante é observar que a proposta era e ainda é grandiosa. Goldbaum et al (2005), diz que a proposta do PSF era se constituir em uma estratégia de reorganização da assistência para o SUS – Sistema Único de Saúde e desta forma promover a equidade. Pedrosa e Teles (2001), diz que o PSF aponta possibilidades de mobilizar forças sociais e políticas em torno de suas diretrizes. Acreditam ainda que o PSF possibilitaria o desenvolvimento de novas habilidades e a mudança de atitude nos profissionais envolvidos. Ou seja, é uma proposta extremamente generosa e ao mesmo tempo pretensiosa. Pode um serviço de atenção básica dar resposta a uma missão tão gigantesca?

Diante de tal missão era de se esperar que não cumprisse a contento, até porque as esperanças eram imensas e os investimentos não tão realistas assim, levando-se em conta a magnitude da missão.

Segundo o Ministério da Saúde (2008), existe hoje 27.324 equipes de saúde da família implantados em 5.125 municípios. Isso totaliza uma cobertura de 46,6% da população ou 87,7 milhões de brasileiros atendidos pela estratégia saúde da família. Seria essa cobertura suficiente para modificar o modelo de atenção a saúde¿ Será a ESF suficiente para mudar esse modelo?
Trabalham essas 27 equipes dentro do modelo pressuposto pelo SUS ou a estratégia foi vista pelos profissionais de saúde e gestores apenas como uma mudança na forma de financiar a assistência básica?

Essas são algumas questões importantes de se discutir quando se pensa no PSF e em suas possibilidade, as prometidas e as reais. Alguns destes questionamentos vamos tentar responder neste breve texto, mas é fato que não dispomos neste momento de dados suficientes para responder tudo de forma definitiva, nem tão pouco temos essa pretensão.

Um dos fatores que nos parece fundamental para o sucesso ou fracasso de qualquer iniciativa, sobretudo no campo da saúde, são os recursos humanos. A questão aqui é: qual investimento foi feito nos recursos humanos voltados para a nova estratégia?

Cada cidade, dependendo de sua capacidade técnica e financeira pode dar capacitação aos seus servidores. Mas como dar capacitação em uma área onde o conhecimento ainda estava, e pode se dizer que ainda está em construção? Além disso o serviço público era e ainda é visto como “um serviço pobre para pobre”, sendo assim o que precisa saber o profissional para trabalhar para pobre¿ Tem interesse de se aprimorar o profissional que pressupõe que seu trabalho é um favor aos pobres que não podem pagar um convênio particular?

A questão é que grande parte dos gestores e mesmo alguns usuários também pensam assim, e neste caso a questão é outra: para que escolher um bom profissional se o serviço é voltado para pobres?

Pedrosa e Teles (2001), destacam que realizaram pesquisa com 163 profissionais do PSF da cidade de Teresina em 1999, constatou que Médicos e Enfermeiras viam a comunidade como um “aglomerado amorfo, indistinguível, desorganizado, consumista de medicamentos e que apresenta hábitos não saudáveis,...”, ou seja, esses profissionais demonstravam não estavam preparados para trabalhar com a população na ótica ideal ao novo programa.

Quem leva o trabalho a sério e trabalha de forma honesta já percebeu que o PSF não é lugar para “qualquer um”. O profissional para trabalhar em atenção básica precisa ter perfil para encarar e vencer os desafios proposto pela estratégia e pela população. Segundo Ronzani e Silva (2008), o profissional para trabalhar no PSF precisa além de capacidade técnica ter criatividade, iniciativa e vocação para trabalhar com grupos. O que nem todos têm. Muitos viram no PSF uma oportunidade de aumentar seus vencimentos. Outros estão trabalhando no PSF apenas enquanto não encontram outras funções. Esse fato é corroborado pelo grande numero de profissionais que atuam em PSF, mas desenvolvem estudos de pós-graduação em outras áreas, talvez na esperança de migrar, o que nem sempre acontece e o profissional, ma maioria das vezes, não consegue ser bom nem na área que deseja nem a que atua. Ainda citando Ronzani e Silva, em pesquisa nas cidades de Rio do Pomba e Santos Dumont (MG) foram encontrados três profissionais com pós graduação, sendo um em saúde pública, ou seja, outros dois, que também atuavam no PSF optaram por buscar aperfeiçoamento em outras áreas. Os autores ainda destacam que os profissionais das duas cidades mencionadas tiveram formação basicamente voltada para trabalho dentro de um hospital. Sendo assim como podem contribuir especificamente para mudança do modelo assistencial tal qual pressupõe o projeto do PSF, uma vez que possivelmente nem sabe do que se trata esse projeto?

Embora o nó do PSF ainda sejam os recursos humanos, algumas pequenas vitórias podem ser comemoradas. Goldbaum et al (2005), comparando áreas na cidade de São Paulo onde existiam equipes de PSF e onde estas não existiam, concluiu que o PSF promove equidade, pois onde ele existe o perfil de usuários não difere e onde não existe a população com características socioculturais melhores usam o serviço com mais intensidade.

Muitas outras vitórias já podem ser creditadas ao PSF tais como: diminuição do número de mortes em recém nascido, aumento no numero de mulheres realizando pré-natal e outros, mas o objetivo deste texto não era esse, e sim problematizar as questões acima.

REFERÊNCIAS

Dados relativos ao numero de Equipe de Saúde da Família implantados. Disponivel em: http://dtr2004.saude.gov.br/dab/abnumeros.php#mapas Acessado em: 25 de março de 2008.

GOLDBAUM, Moisés et al . Utilização de serviços de saúde em áreas cobertas pelo programa saúde da família (Qualis) no Município de São Paulo. Rev. Saúde Pública , São Paulo, v. 39, n. 1, p. 90-99, jan. 2005 .

PEDROSA, José Ivo dos Santos; TELES, João Batista Mendes. Consenso e diferenças em equipes do Programa Saúde da Família. Revista Saúde Pública , São Paulo, v. 35, n. 3, p. 303-311, jun. 2001 .

RONZANI, Telmo Mota; SILVA, Cristiane de Mesquita. O Programa Saúde da Família segundo profissionais de saúde, gestores e usuários. Ciência e saúde coletiva , Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 23-34, jan. 2008 .

SENNA, Mônica de Castro Maia; COHEN, Mirian Miranda. Modelo assistencial e estratégia saúde da família no nível local: análise de uma experiência. Ciência. saúde coletiva , Rio de Janeiro, v. 7, n. 3, p. 523-535, mar. 2002 .

Um comentário:

pcsolotto disse...

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