16 novembro, 2007

UM POUCO DE HISTÓRIA - A EDUCAÇÃO POPULAR NA SAÚDE FAZENDO A DIFERENÇA

Eu me deparo todo dia com essa questão: vale a pena lutar contra esse mar de conformismo(1)?
Mas nós da Educação Popular não temos essa escolha, ou seja, não podemos fazer diferente. Está em nós buscar as mudanças, superar as injustiças, lutar com o povo. Paulo Freire fala do otimismo e da esperança necessária neste trabalho(2).E precisamos muito disso. Por mais que seja desanimador ver o que acontece com grande parte das pessoas que lutam todos os dias pela mudança, não podemos desistir.
Sempre terão os "convertidos", os mensaleiros, os encantados com o poder, os que querem a desgraça para justificar sua falta de caráter e a conversão. Mas se esse é o preço, e o Padre Júlio(3) sabia e sabe dos riscos, temos que paga. Ou vamos mudar de lado?
A verdade talvez venha à tona, talvez não. O prejuízo já foi feito e não vai haver retratação espontânea. Mas não podemos desistir.
Para ser sincero não acho nem que seja questão de escolha, não temos o direito, não temos a condição de desistir. Se desistirmos teremos que fazer outra coisa no lugar. E o que será? Receber mensalão? Pescar? Fazer queimada? Ver o domingão do faustão? Ir ao cinema sem compromisso ou ler poesia sem compromisso? Não sei fazer e nem quero fazer nada disso. Portanto, mesmo que seja doido e perigoso, e é, temos que continuar, até em nome do Padre Júlio e de seu trabalho exemplar.
Só para ilustrar
Em 1996 eu participava de uma manifestação em um praça pública. Porém o prefeito da cidade (Fazenda Rio Grande - Cidade dormitório da Região Metropolitana de Curitiba - 100 mil habitantes vivendo amontoados e sem estrutura básica). O prefeito achava que a praça era dele e que só podia fazer manifestação em nome de suas causas ou de seu pai, que era candidato e é deputado no Paraná desde 1500, pelo que me lembro. Dizem que fazia trafego de drogas, mas disso, até onde sei, não há provas, mas de seqüestro, espancamentos, roubos de carro e fraudes generalizadas sim.
Estávamos no parque fazendo manifestação, andávamos com bandeiras do PT, vermelhas e autenticas, na época. Nosso grupo, umas 10 pessoas entre professores, profissionais de saúde, operários(4), estudantes, desempregados, fomos abordados pela polícia que nos informou ser proibido andar com bandeiras de partidos ou candidatos naquele local. Ai eu disse: e por que pode do Cartário? (nome do candidato que tinha dezenas de bandeiras, faixa e cabos eleitorais andando entre o povo.) O delegado deu uma risadinha e disse: ele é pai do prefeito.
Nos recusamos sair e fomos espancados. Eu fiquei com o nariz quebrado e usei gesso e tampão nasal por muito tempo, sem falar na cirurgia que dói mais que parto (principalmente para quem não deu a luz).
Na época eu usava um boton do Lula, (bons tempos quando éramos nós que ajudávamos a financiar a campanha e não o Bradesco). Na cirurgia o médico do Hospital da PUCPR(5), residente em cirurgia de face disse: você vai votar no Lula? Respondi que sim e disse: e você não vai? Ele só disse: se você não tirar esse boton vou fazer sua cirurgia doer. Os outros médicos da equipe riram. Um ainda tentou reagir, mas muito timidamente. Eu não tirei, as minhas convicções não deixaram. Até hoje tenho remorso por não ter anotado o nome do profissional e denunciado(6) ou furado o pneu do carro dele.
Os policiais do município (civil) eram todos, inclusive o delegado, nomeados pelo prefeito. Eram homens que foram cabos eleitorais dele. Ladrões e jagunços. Não estou exagerando. Mais ou menos um ano depois houve uma operação da policia metropolitana e todos foram presos dentro da delegacia de Fazenda Rio Grande. Acusação: roubo de carro. Suspeitava-se, na época e a imprensa chegou a noticiar que o desmanche montado era para financiar a campanha a deputado do pai do prefeito. Além de roubo foram acusados de espancamento e seqüestro.
Fazenda Rio Grande estava nos noticiários na época. Teve seu tempo de fama no jornal nacional e em revistas nacionais. O prefeito decretou toque de recolher na cidade depois das 22 horas, disse na época que era para diminuir a criminalidade. Saiu na veja, na isto é, jornal nacional. Todos comemoravam os ótimos resultados da iniciativa e tive outras cidades querendo fazer o mesmo. O que só nós, moradores da cidade sabíamos, é que aproveitavam o toque de recolher, às 22 horas, para torturar com choques elétricos os estudantes que saiam da escola às 22:30 e os trabalhadores que chegavam em casa depois das 22 horas. Foi uma época horrorosa. Quando isso veio à tona a globo, a veja e a isto é não se interessaram.
Voltando ao Parque: fomos espancados pelos capangas do prefeito. Um deles, lutador de caratê, forte, segurança pessoal e vulgo "bate pau", tinha a pela negra e se encarregou de quebrar nossos ossos pessoalmente. Fomos espancados, o delegado e os policiais davam segurança para o espancamento e para o espancador, como se ele precisasse.
Um cidadão com câmera filmou tudo, e teve que sair corrido do lugar. Procurado no dia seguinte tinha sumido no mundo para não ceder a fita, pois fora ameaçado de morte pelo delegado.
Denunciamos na delegacia metropolitana, procuramos órgãos de defesa dos direitos humanos, jornais, rádios e até partidos de direita. Na época todos colaboraram, pois esse grupo era “inimigo da vida". Só um detalhe, éramos militantes do recém formado PT no Município, mas esse grupo (dito militantes do PMDB) ou quadrilha organizada para se perpetuar, ameaçou, espancou e seqüestrou gente do PSDB, PFL e outros.
O que o prefeito alegou para justificar o espancamento?
Que eu (Ernande Valentin do Prado) havia insultado o espancador chamando-o de negro sujo. Ele disse isso para jornais, rádios e em toda parte.
Não surtiu muito efeito, pois todos sabiam que o prefeito era desequilibrado, arrogante, despreparado e desinteressado pela “coisa pública”. Diziam também que era traficante e usuário de drogas(7), mas isso não chegou ser provador.
Todos que me conhecia, o que não era muita gente na época, pelo menos na cidade, pois havíamos acabado de começar a militar, sabiam que isso era improvável, assim como no caso do Padre Júlio Lancellotti. Eu inclusive já tinha uma militância na luta contra discriminação racial, tendo inclusive promovido debates com o movimento negro nas escolas da cidade quando era do grêmio estudantil. Mas isso não impediu que o advogado do “capanga” usasse isso contra mim.
Não deu em nada, ninguém foi preso e não houve retratação. E pior, o mesmo partido que ajudei a formar e do qual tenho orgulho de ter participado durante mais de 15 anos, ainda se aliou a esse grupo nas eleições de 2002. Ai foi, para mim e muitos outros, a confirmação da injustiça total. Rasguei minha filiação, abandonei meu cargo no diretório, escrevi uma longa carta pública para justificar minha saída do partido, pois a essa altura já era identificado com petista, no que isso tinha de bom e de ruim na época, que é muito diferente de hoje em dia. Eu não suportava a idéia de meu nome estar ligado a uma traição destas. Minha militância política partidária acabou ali, mas não a luta contra as injustiças. Na época das eleições o PT, sem campanha encabeçava as intenções de voto. Depois desta manobra ficou em terceiro lugar, tendo gasto 90% mais dinheiro que em eleições anteriores. Mas não havia mais militantes, só cabos eleitorais e, pelo visto, dinheiro sobrando.
Este mês, outubro de 2007, mais ou menos duas semanas depois do escândalo envolvendo o Padre Júlio, fiquei sabendo que o Padre de Fazenda Rio Grande, que também dava trabalho aos coronéis da área, e na região Metropolitana de Curitiba e mesmo na Capital do Paraná, que dizem ser cidade de primeiro mundo, tem muitos coroneis, foi preso por pedofilia.
Segundo fiquei sabendo pelo pessoal de lá, não há uma única prova. A única coisa que sei com certeza é que trabalhei uns três anos em sua paróquia e ele sempre esteve envolvido com a luta popular, inclusive teve fieis perseguidos e a igreja invadida por políticos truculentos e famílias tradicionais do lugar, o que é uma característica desta região do Paraná. E agora preso por pedofilia sem prova nenhuma.
Quem vai ser o próximo? Vão descobrir que Tiradentes, Zumbi, Antonio Conselheiro e Lampião eram pedófilos...

E a vida segue, cada vez mais sem dignidade.

___________________________________

(1) Esse texto nasceu do questionamento de um membro da Rede de Educação Popular e Saúde: “Já notei algo que acontece neste país (não sei se no resto do mundo também): sempre que alguém tenta fazer uma notável diferença na sociedade é caçado até a morte. Assim, vale a pena se esforçar tanto para mudanças efetivas?”
___________________________________
(2) Seria injusto indicar o livro ou a página onde Paulo Freire diz isso, pois está em toda sua obra. Em qualquer de seus escritos e no modo como viveu. Mas lembro especial de Pedagogia da Autonomia, que acabei de reler. Mas aqui não se trata do otimismo e da esperança vazia, mas de um otimismo fundamentado no trabalho cotidiano pela superação da opressão e pela promoção da autonomia do ser humano.
___________________________________
(3) O questionamento mencionado acima nasceu do relato, vai Rede de Educação Popular e Saúde, das denuncias envolvendo o Padre Júlio Lancellotti em São Paulo. Para saber mais sobre isso: http://edu.guim.blog.uol.com.br/index.html
___________________________________
(4) Entre os operários estava eu, que na época era operador de retífica em uma metalúrgica em Curitiba.
___________________________________
(5) Hospital e pronto socorro Cajuru de Curitiba.
___________________________________
(6) Mas a verdade é: denunciar onde? Para quem? Quem estaria interessado em ouvir e fazer alguma coisa?
___________________________________
(7) Vale aqui uma observação do nosso colega Denis Petuco, da Rede de Educação Popular e Saúde. Durante a postagem com a primeira versão deste texto ele pegou uma frase descontextualizada que formulei e aproveitou para divulgar um dos princípios do trabalho de Redução de Danos, que tenho certeza serviu para esclarecer muita gente, inclusive eu: “...não acho muito bacana dizer que ele usa cocaína, na mesa frase em que você diz que não se pode dar ouvidos a eles. Vou ficar achando que você acredita que uma coisa tem a ver com a outra, ou seja: que você acha que não se pode dar ouvidos a alguém que usa cocaína.
...Existem pessoas que usam cocaína, e que são canalhas; existem pessoas que usam cocaína, e que constroem as bases da psicanálise; existem pessoas que usam cocaína, e que trabalham cotidianamente com preceitos de educação popular e saúde, em PRD's (Programa de Redução de Danos) em todo o Brasil. Isto tudo sem falar nas pessoas que usam cocaína, que perdem o controle, e que precisam de ajuda.
A cocaína não torna as pessoas más, e as pessoas más não são todas elas usuárias de cocaína. Vivemos num tempo em que as condições de emergência para os maiores desrespeitos aos direitos de populações faveladas (ou da população da Colômbia) passa por discursos como este. Vamos ter cuidado, pra não repetir.

Nenhum comentário: