16 agosto, 2007

A ÁRVORE É COMO A GENTE


Uma árvore é como a gente, sempre resisitindo diante das intempéries naturais e/ou deliberadas. Uma árvore seca é o resultado do clima hostil, que "se recusa ser vencida" assim como os milhões de pobres do Brasil.
"Talvez só eu veja, mas duvido". Muitos olhares cooperativos e solidários se voltam para a árvore seca. Vêem sua beleza apesar da secura, vêem sua candura apesar da dureza. Uma árvore seca é como o olhar de um menino pobre da América Latina, da África, da Ásia ou da Índia. Apesar do fantasma da fome e do medo há um brilho intenso no olhar da árvore e do menino. Há um verdor de esperança nos olhares que não ficam inertes diante da árvore seca e do menino.
"Hoje estive lembrando de minha vida passada". Vida de menino a subir nas árvores do lugarejo onde nasci. Dos galhos robustos e das copas eu avistava outros mundos, outras árvores, outras copas. "Como era verde o meu Vale!".
Cresci. Aquela árvore não mais vi. Perdi o contato com o verde das copas, com o cheiro do mato e caí num sistema que me faz rastejar como cobra, "já cansado de tanto" pular de galho em galho - condução e condição para chegar a um modelo de trabalho que me avilta. vida seca: "ficava infeliz o tempo todo sem poder fazer" a árvore e o menino reflorescerem.
"Hoje estou tão bem aqui". Eu refloresci. Esta árvore seca retrata a angustia do olhar intenso do menino e o devir dos que buscam construir um destino, que não se deixam amesquinhar pelo sistema assassino que seca a árvore e tira o brilho do olhar do menino.
"...todo dia vejo esta árvore e dezenas de outras árvores recheadas de poesia e beleza", pois o futuro é agora, o presente já é quase ontem, mas precisamos sempre cuidar da árvore, cuidar do menino, cuidar da vida da gente mais compartilhada.
"Pena que muita gente ainda não se deu conta disso. Por isso que há tanta árvore seca e tantos meninos tristes. "É claro que para ver e sentir, muitas vezes é preciso acostumar o olhar".
O meu olhar é o olhar dessa rede de educação popular. O meu olhar não é simplesmente o meu olhar. O meu olhar é um campo de visão superlativa que não foca apenas o "eu" e o "meu", mas o "teu" e o "nosso".
Que o raio de ação dos nossos olhares alcancem a raiz daquela árvore e se identifique com o brilho do olhar do menino pobre. Só assim, a beleza da paisagem será imensa mesmo nas nossas selvas de pedra e de asfalto, responsáveis por tantas árvores secas e tantos olhares tristes de meninos e meninas.
Olhei a árvore seca através de um vivente e andarilho que, atende pelo nome de Ernande, cujo olhar descritivo foi tão profundo quanto o Rio Negro.

Elias J. Silva - Educador Popular


O texto acima foi envia pelo autor através da lista de Discussão da Rede de Educação Popular e Saúde. Ele partiu de um comentário enviado por mim para mesma lista e posta na coluna ao lado deste blog.


COMENTÁRIO:

Existe uma beleza e uma dignidade inexplicável numa árvore seca que se recusa ser vencida. Talvez só eu veja isso, mas duvido. E todo verão ela renasce. Hoje estive lembrando da minha vida passada, quando acordava às 5 e30 da manhã para chegar às 8 no trabalho já cansado de tanto andar de ónibus. Ficava infeliz o tempo todo sem poder fazer o que os Usuários do meu serviço precisavam. Hoje estou tão bem aqui em Rio Negro, não que seja um lugar perfeito, mas todo dia vejo esta árvore e dezenas de outras paisagens recheadas de poesia e beleza. É claro que para ver e sentir, muitas vezes é preciso acostumar o olhar e eu ainda estou acostumando. A qualidade de vida hoje está nas cidades do interior, pena que muita gente ainda não se deu conta disso.

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