26 junho, 2007

NÓS VAMOS AO LAR DOS IDOSOS

Hoje estivemos no Lar dos Idosos. Todos os meses nossa Equipe vai até o Lar dos Idosos realizar o HIPERDIA. No lar estão 11 pessoas, a maioria sem vínculos familiares sólidos. São 10 homens e 1 mulher. Já tem alguns meses que estamos fazendo esse serviço, porém não conseguimos fazer a parte coletiva, pois é difícil chegar a ter a atenção e a confiança deles. Sempre vemos a pressão arterial, o peso, a circunferência abdominal, feridas, alergias ou dores e não vai além disso.
Outros profissionais reclamaram que tentaram fazer trabalhos preventivos com os Idosos, mas que eles não aceitam bem. Será por que?
Claro que é um desafio fazer prevenção com idosos vivendo em um lar (popularmente ASILO), isolados da família e muitos isolados de tudo que ficar fora dos muros. Muitas vezes eles não aceitam bem, mas também como aceitar alguém que entra em sua casa para impor regras: não pode comer carne gorda, não pode comer açúcar, não pode comer fritura, não pode andar descalço, não pode fumar...E vamos ser sinceros: nós somos ótimos em proibir. Às vezes acho que seria possível passar o dia inteiro dizendo o que não se pode fazer para ter uma vida saudável.
Mas que vida seria essa se respeitassem todos as nossas regras?
Alguns mais radicais chegariam a conclusão que morrer é melhor que ter uma vida saudável a esse preço. Ou estou mentindo?
Hoje resolvemos não falar nada.
Muitas vezes ficamos proibindo por pura falta de assunto. Nos dizemos profissionais da saúde, mas na verdade estamos todo o tempo celebrando a doença. E nossa equipe quer fugir disso. Desde que realizamos uma discussão sobre essa “celebração da doença”, em uma de nossas reuniões semanais, já conseguir inverter essa lógica em alguns grupos do HIPERDIA. Hoje conseguimos fazer isso no lugar mais difícil de todos, onde, dizem, não tem como fazer prevenção ou promoção de saúde.
Fizemos a roda, como sempre fazemos em todos os grupos. Mas não falamos nada. E dissemos: hoje são vocês que vão nos falar. E perguntaram: falar o que. E dissemos: falem o que quiser. Conte sua vida para gente. E ele contou...(contou que nasceu em Minas Gerais, que passou pelo Paraná, que morou no Perdigão, que tem um filhos em São Paulo que não vê a muitos anos...aí parou emocionado, disfarçou e falou de outras coisas). No inicio tivemos que perguntar, mostrar interesse, garimpar. Mas ainda não estão à vontade. Sei que esse diálogo ainda vai ser melhor. Hoje ele deixou de ser monólogo...amanhã pode vir a ser um bate-papo e depois...o depois abre muitas possibilidades.
Longa vida a Paulo Freire, que nos possibilita dias como esse.
Participaram desde dia: Elizete (Auxiliar de Enfermagem), Ademar (Agente Comunitário de Saúde, Priscilla (Nutricionista) e Eu (Enfermeiro).
COMENTÁRIOS
Enviei esta postagem para REDE DE EDUCAÇÃO POPULAR E SAÚDE e alguns colegas fizeram comentários e reflexões a respeito de nosso trabalho. Abaixo está o comentário da
Ananyr Porto Fajardo, Dentista do Grupo Hospitalar Conceição de Porto Alegre:

Ernande,
Achei ótima a percepção do teu grupo de trabalho de que muitas vezes é necessário calar para ouvir! Eu quase enxergava vocês todos conversando!
Depois que li o teu relato pensei por que vocês não incluem os trabalhadores do asilo nas conversas e grupos com os velhinhos? Afinal, quem prepara a alimentação (com muito ou pouco sal, açúcar e óleo) é (são) o(s) funcionário(s), não é? Quem realiza as tarefas domésticas, controla o horário de administrar algum remédio ou cuida de quem está acamado também tem, eventualmente, algum problema de saúde ou hábito que pode ser prejudicial ao seu bem estar e dos próximos. Mais ainda, é muito comum que cuidadores de asilo sejam pessoas mais velhas que também têm histórias para contar.
Que tal de vez em quando problematizar as situações de vida e adoecimento com todos, inclusive voluntárias/os?
Há algum tempo atrás escrevi um pequeno texto intitulado "Resultados inesperados da educação em saúde" no qual eu descrevia uma experiência singela com um grupo de usuários que produziu mudanças na vida da funcionária terceirizada que fazia a limpeza do posto de saúde. Sem querer, alguém de fora do grupo aproveitou as discussões que apenas escutava enquanto trabalhava conosco.
Por hoje é isso!
Um abraço, Ananyr

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